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22/08/2008 21:27
Parte II - A Condição Limite do Herói
Bem, pessoal, está mesmo impossível para mim postar logo abaixo do tópico desta tradução, por isso resolvi abrir este outro post que, na verdade, é a continuação daquele que está logo abaixo.
Sei lá o que anda acontecendo......
Acredito que não seja obra do Jim....tenho certeza que ele iria gostar que vocês conhecessem esse livro.
A Poesia e o Limite
"Eu chamo poesia aquilo que é o avesso do tempo
Essas trevas que se abrem aos olhos esbugalhados
Esse domínio das paixões onde me perco......."
Louis Aragon
Em 1968, Morrison arriscou-se em declarar que os livros iriam ser substituídos pelos álbuns de música.
Ele desenvolveu o argumento de que os livros ou os filmes seriam lidos ou vistos apenas uma vez, no máximo duas ou três vezes, ao passo que um álbum musical poderia ser escutado até dezenas de vezes.
Ele modificaria, evidentemente, essa sua opinião.
Alguns anos mais tarde, ele faria poesias como ninguém e seria reconhecido como um astro do Rock e não apenas como um artista qualquer.
Mas, o que ele almejava, era também ser reconhecido como poeta.
Essa é toda a problemática entre aquilo que é passageiro e o que permanecerá até a morte, e que o perturba e obseca.
Ele deseja apenas um lugar, o de poeta, e o reconhecimento de sua arte.
A Poesia e o Nome Próprio
Os escritos de Jim Morrison compõem e são as letras das canções dos Doors, mas ele buscava ardentemente, através de sua inspiração, se ver como poeta e ser reconhecido como tal.
Num primeiro momento, ele desejou ser editado como poeta de forma dissociada. De um lado, o astro de Rock famoso; de outro, o poeta maldito, pouco importando que fosse conhecido.
Ele quer ser poeta ao lado de Rimbaud, Baudelaire e de todos aqueles com os quais se identifica fortemente.
poeta Rimbaud
Em 1969, ele quer publicar seus poemas a todo custo e com uma exigência: nenhuma foto, nenhuma referência sequer ao fato de ser um astro do Rock.
Sua coletânea de poesias se intitula: "Os Senhores e as novas Criaturas". A obra é editada em 1969 e na capa do livro é escrito o nome: James Douglas Morrison.
Um testemunho de um amigo mostra a carga emocional e o peso simbólico dessa publicação:
"Quando o livro foi publicado e os primeiros exemplares chegaram pelo correio a Los Angeles, eu encontrei Jim em seu quarto, chorando. Ele estava sentado, com o livro entre as mãos, e dizia: "- Esta é a primeira vez que eu não me sinto enganado." Jim repetiu isso uma ou duas vezes, e eu creio que ele queria dizer com isso, que era a primeira vez que ele se sentia verdadeiro consigo mesmo."
Essa passagem nos mostra a difícil coexistência que havia entre Jim e James Douglas.
O astro do Rock, líder de um grupo conhecido mundialmente, tão popular na época quanto os Beatles ou os Rollings Stones, não aspirava senão a uma coisa: ser reconhecido apenas como um simples poeta.
Esta primeira obra de Jim é, aliás, bastante original e única, assim como as imagens que ele cria. Algumas vezes, seus poemas apresentam-se como uma observação comportada; outras, como um comentário humorístico, uma contemplação, uma balada ou uma narrativa sonhadora, mas sempre com sonoridade nas palavras, com uma melodia nas sílabas e nos fonemas que os deixam atraentes e misteriosos.
A escolha dessas expressões não é guiada por uma racionalidade, mas por uma musicalidade, às vezes distanciada do senso comum, e que mistura o mistério e a estranheza.
Os temas que Jim aborda são atemporais: a arte, a imagem, o belo, o cinema, a morte e a vida, e os sentidos possíveis que poderiam ser encontrados. A noite é onipresente, assim como a obscuridade, que revela os demônios e os medos da infância.
Nesta sua primeira publicação, Morrison fala de seus temores de infância e de seu receio da aniquilação.
"Tudo é vago e vertiginoso.
O medo aumenta e não há mais distinção entre as partes do corpo
Invade o som de vozes ameaçadoras, monstruosas, monôtonas
É o medo e a atração de ser devorado."
Não é impossível pensar que esse medo de ser devorado, o qual os terapeutas encontram regularmente em seus pacientes clínicos, esteja relacionado ao objeto arquétipo materno. Ele está ligado a uma idéia de vazio e perigo relacionado à mãe.
Todos os contos que falam sobre o fato de alguém "ser devorado", remetem a essa crença ancestral da "mordida"(morte certa?) do "devoramento" e aniquilamento.
Da mesma forma, as vozes plenas de ameaças e zombarias a que Jim se refere, poderiam ter a mesma origem.
Sua fábula é um reflexo, sem dúvida indireto mas preciso, das criaturas que povoam sua imaginação.
Em sua obra "Os Senhores e as novas Criaturas", ele fala pouco dessas novas criaturas que, de certa forma, são um enriquecimento e um aprofundamento dos diversos personagens que habitam em si mesmo.
O que levou o jovem James a escrever e por que tão cedo?
Ele mesmo declara ter começado a escrever muito cedo, sem dúvida bem no início de sua adolescência.
Escrever para Existir
Inúmeros psicanalistas debruçam-se sobre o particular fenômeno da escrita na adolescência.
Pesquisam sobre essa necessidade de se expressar através de palavras, da urgência em traduzir em palavras aquilo que é experimentado e sobre o sentido que as mesmas envolvem, às vezes, de forma desconhecida e incomum.
A escrita parece, então, ser a expressão mais fiel daquilo que se sente.
Diante dessa ruptura com a infância e desse imenso salto incomum, cada um, cada jovem, vai tentar se encontrar da melhor forma possível.
Quantos milhares deles não traduzem, na escrita, suas crenças e suas dúvidas, seus questionamentos e seus temores, sua dificuldade em se posicionar no mundo?
Qual adolescente não tentou, durante um tempo, possuir um diário íntimo ou ensaiar uns passos felizes pela poesia?
Cada um de nós guarda em si essas lembranças ambivalentes, a idade das primeiras experiências e seu início.
A escrita tenta demarcar um sentido entre o mundo conhecido da infância e aquele que se revela desconhecido na adolescência.
A escrita é um diálogo simples consigo mesmo, através do qual procura-se exprimir confissões, desalentos, certezas, sonhos e imaginações; havendo, igualmente, espaço para os desejos mais loucos e mais ocultos.
A língua materna, aquela que parece carregar uma conotação de lei e norma, possui uma outra consistência da qual o adolescente parece se afastar.
Assim, parece lógico que ele vá procurar além uma outra liguagem, uma outra forma de expressão, uma nova criação.
O jovem, através da escrita, passa a registrar o "sermão" de seus pais; aquele "sermão coletivo" que está encarnado no momento presente.
Entre essas posições que acabamos de especificar é que se faz uma quebra e se situa o campo das utopias.
Moustafa Saforian, um psicanalista, afirma que "a escrita não passa de um ato de palavra."
Para Morrison, isso é tão verdadeiro, que ele mescla suas palavras à escrita e vice-versa.
Mas, se a escrita permite a um adolescente a possibilidade de "pular" passagens que possam reviver marcas pessoais, Morrison prende-se à escrita como uma necessidade de se apoiar no registro simbólico da mesma, depreciando sua imaginação tão rica.
Pois, como diz Lacan, um famoso psiquiatra:
"É necessário morrer em uma certa relação do imaginário com o objeto, para que se possa renascer para o simbólico."
Podemos entender isso como a elaboração de um caminho necessário da mente para se construir algo.
Mais precisamente, Morrison objetivou essa passagem ao nível simbólico.
Aprender a pensar, aprender a escrever, é aceitar situar-se diante das regras e das leis estáveis.
A escrita se insere no campo do real e nesse se reflete. A poesia, entretanto, brinca com a sonoridade das palavras e com a incongruência que a combinação dessas palavras pode produzir.
Essa aparente falta de sentido existente nas palavras que compõem uma poesia não é sintomática em si mesma, mas indica os pontos de dificuldade de sua inserção ao nível simbólico, produzindo o fim do real.
É nesse sentido que a poesia é universal e eterna.
"Palavras, palavras, palavras......", diria Shakespeare à Hamlet, um eterno adolescente.
Para a personalidade específica do adolescente James Douglas, essas observações acima são pertinentes. Entretanto, devemos dar um passo a mais em direção ao âmago desse personagem e nos apoderarmos de toda sua complexidade.
As leituras muito ecléticas e variadas de James Douglas influenciaram a qualidade de sua escrita e juntamente com suas referências literárias e poéticas interferiram em seu pensamento tanto quanto em sua escrita.
Cedo, Jim se atirou a um determinado tipo de literatura, que tinha a ver com seus questionamentos e aspirações.
Por essa época, ele se alimenta de poesia e vasculhará os mais diferentes gêneros literários, desde os esotéricos até os filosóficos.
Seu espírito curioso e naturalmente investigativo o impulsionou a ler os mais variados textos.
Seu desejo de conhecimento é infinito.
Ele quer explorar mundos novos e, num primeiro momento, efetua essa busca através da leitura e da escrita.
Mais tarde, Jim se colocará a experimentar a própria realidade, numa ação contínua que ele não conseguirá fazer parar, até que suas próprias asas seja queimadas.
Paralelamente às suas leituras, todo o seu ser se orienta numa tensão ansiosa em direção à escrita.
Se, para todo o adolescente, a escrita é um apoio importante e um modo de expressão que reencontra a palavra esquecida, para James é uma necessidade vital numa situação de urgência: a vida está em perigo, e a morte ronda. É como um instinto de sobrevivência que o compele através da escrita.
Certas pessoas possuem uma fragilidade que lhes imprime um movimento incontido em direção à escrita.
Nesse sentido, poderíamos formular a hipótese de que Jim assim agia, como uma forma de conter um impulso de autodestruição que cedo começou a se manifestar nele.
A Ilegalidade do Poema
A maior parte dos escritos de Jim evocam a morte e o fim.
É possível selecionar os diferentes temas que sempre aparecem e os classificar em tópicos.
Conforme o período de sua escrita, alguns temas evoluem e outros permanecem imutáveis: o amor, a morte, a vida, o sexo, a porta, o espelho, como tantos outros de significados semelhantes, envolvem-se numa névoa de incompreensão.
Mas Jim é, também, suficientemente lógico, para que consigamos ver algum significado nessas expressões, apesar de sua gramática quase incongruente, que tenta nos impedir de enxergar o lado particular das palavras em um determinado contexto.
Morrison ama as palavras, gosta de brincar com elas, de lhes proporcionar diferentes sentidos, fazer alusões e metáforas, ser obscuro, utilizar-se de rimas incomuns, usar sonoridades desconexas.
Jim, como um escritor, não perde jamais sua força e seu impulso criativo. As palavras que nascem de suas idéias e de suas mãos parecem carregar um brilho e uma juventude que muito procuramos nos tempos atuais.
Algumas de suas poesias se parecem com HaiKai japoneses, mais por sua essência do que propriamente por sua estrutura, enquanto outras podem ser inseridas no rol das máximas filosóficas de Wittgenstein. Assim, ele escreve no seu "Senhores e as novas Criaturas"
"Todo o jogo contém a idéia de morte"
ou ainda:
"Quando o jogador morre, ocorre o jogo
Quando o sexo morre, ocorre o orgasmo"
Através da ótica de sua poética, Jim ilustra seu universo, suas concepções da vida, da morte em sua ligação mais íntima com o gozo, aquele gozo orgásmico.
Pois o sexo permanece para ele um enigma, sobre o qual ele fala exaustivamente em suas canções ou em seus poemas.
Em sua vida real, Jim teve a reputação de ser um grande possuidor de mulheres por uma só noite, de "groupies" ou de garotas de programa.
Ele frequentava habitualmente bares de garçonetes com seios nus(topless), principalmente o "Phone Booth", que ficava perto de sua casa e do escritório dos Doors em Los Angeles.
Através de sua escrita poética, Morrison procura se dar conta de sua visão de mundo, através de uma subversão radical da palavra, que ele tenta aplicar em sua vida e em sua atividade de cantor de sucesso.
Pierre Legendre escreve em seu "Notas sobre a Ilegalidade do Poema" "..........Por que os direitos poéticos não figuram na lista dos direitos humanos? Essencialmente, porque esses direitos são perigosos; fazem libertar o inconsciente, abrir as comportas, deixar explodir e explorar o desejo. Nada é mais perigoso em uma sociedade que o desejo de uma pessoa livre, o desejo cego, o desejo incontrolável.........."
Pode-se dizer que esse texto tem uma clareza e uma concisão tais, que foi feito sob medida para Morrison?
Entretanto, essa nota sobre a poesia nos leva a algumas outras considerações.
Descobrir seu espaço de liberdade, revelar seus significados inconscientes, somente a escrita poética pode isso pretender.
Os psicanalistas não podem permanecer alheios diante da tamanha beleza que a palavra consegue assumir.
Freud prestou homenagens a muitos de seus escritores contemporâneos, principalmente aos romancistas que conheceu, como Anatole France e Stefan Zweig.
Ele notou nas obras desses escritores, aspectos relacionados à alma humana, descritos de forma bem mais profunda do que aqueles elaborados por teorias psicanalíticas.
Com efeito, mesmo as teorias mais perfeitas e pertinentes jamais alcançam a magia da palavra poética e a musicalidade que se percebe na mesma, o brilho, os turbilhões do inconsciente e, sobretudo, a verdade do desejo.
Assim sendo, a verdade do inconsciente de uma pessoa poderia vir à tona em meio à poesia e na ausência da psicanálise. Da mesma forma, no registro da intimidade da escrita, ou na análise proposta pelo psicanalista, ambas estariam válidas.
Mas, para o poeta, suas palavras parecerão lunáticas quando ouvidas pelos outros.
Mas esse é o tributo que a poesia paga.
Assim, a verdade que brota do inconsciente do poeta é algo solitário, e a sociedade não pode suportar durante muito tempo aquilo que é dito pela poesia, pois a lógica do mundo e a do ecritor são opostas.
Desta forma, para que algo sobreviva visando à "segurança" da realidade, deve-se domesticar o impulso poético, através do truncamento da beleza do verbo e de seu poder de revelação da verdade.
o poeta Jim
- À Procura do Excesso
Os limites, os excessos, Morrison os utiliza com uma regularidade constante, como se houvesse uma linha invisível que conduzisse à destruição de seu potencial criativo e também de sua pessoa.
Ele aprecia comportamentos estranhos e gosta dos riscos que possam envolvê-los.
Jim experimenta inúmeras drogas, principalmente as anfetaminas, a cocaína, o LSD e o haxixe.
O uso constante e regular que ele faz dessas substâncias age, ao mesmo tempo, como uma força de inspiração e um potencializador de sua auto-destruição.
A dimensão transgressiva, que sempre caracterizou o comportamento de Jim, é bastante evidente através do uso dessas substâncias ilícitas.
Através de uma identificação com certos poetas, como Baudelaire ou Rimbaud, Morrison valoriza e idealiza o haxixe, e, em Paris, visitou o local onde se situava o "Clube dos Fumadores de Haxixe", descrito por Baudelaire.
Suas referências literárias são ecléticas.
Ele considera, em primeiro lugar, Aldous Huxley, mas também aprecia outros inúmeros poetas e escritores, tanto os antigos como os contemporâneos.
Sempre à procura de novas sensações psíquicas, ele tenta ultrapassar "as portas da percepção" recorrendo às drogas.
No caminho de seu destino, Morrison avança sem jamais retornar.
Saberia ele aonde aquele seu caminho louco, sua busca desesperada pela felicidade total, o outro lado das coisas, o estariam levando?
Jim experimentou tudo o que pôde.
Sentiu toda a sorte de sensações, chegando aos limites da consciência e da mistura de todas as percepções.
Entretanto, nota-se nele uma tendência à não-vida, à medida em que esbarra nos limiares da morte e em sua destruição.
Isso é o que nos parece à primeira vista, mas percebemos ser ainda muito cedo para colocarmos uma explicação psicológica a respeito dessa busca pela aniquilação.
Para Freud, existe um impulso ou pulsão, definida como "impulso de morte", que raramente aparece de forma clara e precisa nos pacientes que se submetem à terapia. Esse impulso, normalmente, se faz notar de forma indireta.
Em Morrison, uma coleção de argumentos estariam presentes para mostrar a influência desse impulso na estrutura de sua personalidade.
O Fantasma da Desgraça
Os risos sádicos, as atitudes imprevistas, os comportamentos perigosos deram colorido ao cotidiano de Morrison.
Ele não se preocupava, nem um pouco, com esses excessos.
Às vezes, Jim possuía momentos de lucidez, mas suas ações excêntricas rapidamente ressurgiam.
Ele apresentava todos aqueles comportamentos rebeldes, que surgiram na primeira fase de sua adolescência, arruinando tudo aquilo em que tocava e, em particular, os seres que pudessem pertencer à sua esfera afetiva.
O entendimento de Jim a respeito das mulheres sempre foi o mesmo: ele as enganava ou menosprezava, mostrando-se em seguida doce e terno.
Jim também apresentava acessos repentinos de violência ou agressividade, surpreendendo a todos que estivessem a seu redor.
Depois dessas colocações, resta perguntar:
- Por que Jim não viveu sozinho, desde o início, os seus próprios sonhos?
- Por que, um pouco mais tarde, hesitou em não mais fazer parte dos Doors ou cantar sozinho?
Várias colocações podem ser propostas para explicar os motivos de seu declínio.
Mas, o principal é perceber entre todas, que restava a ele ainda "abrir" uma porta, uma entre milhares de outras, que lhe revelaria um mundo fantástico, mas também que o conduziria às margens da loucura.
A música foi indispensável a Morrison para fazer desabrochar tudo aquilo que motivava e precipitava os componentes de sua destruição. Mas, existia também um aspecto criativo que se encarnava na sublimação de sua arte.
Jim foi considerado por muitos como um cantor sem grande aptidão vocal, ainda que a tonalidade grave de sua voz transmitisse uma gama de variadas emoções.
Entretanto, ele possuía incontestáveis qualidades artísticas e uma facilidade incrível de transmitir emoções ao público ou à platéia.
Esse carisma de Jim fez dele um vocalista que se projetava em cena, não apenas devido às suas provocações e excentricidades, mas sobretudo por essa energia, essa força que ele exalava e que conseguia emitir através da poesia de sua voz e de sua música.
A falta de sentido que havia em sua vida, ele conseguia transformar na mais primordial das emoções.
Sua identificação com um animal totêmico, o lagarto, mostra que ele pensava possuir um tipo de memória profunda, reptiliana. Como afirmam os neurobiologistas, esse cérebro reptiliano, que nós compartilhamos com inúmeras espécies animais, é a faceta indomável que habita em todos nós.
Morrison se sentia particularmente próximo dessa dimensão.
A parte dionisíaca de seu ser vibrava em uníssono com o lagarto, que se sentia livre dentro dele.
A nossa civilização está baseada na retenção e repressão de seus próprios instintos, mas consegue perceber as necessidades instintivas imediatas.
Em plena crise adolescente, os jovens encontram-se num caminho difícil, ao sentirem a explosão de seus desejos de puberdade.
É exigido a eles que se conformem com as normas prescritas pela sociedade, enquanto todo o seu ser anseia pela satisfação imediata de seus impulsos.
Morrison exalta em seus escritos esse desejo de satisfação urgente dos instintos.
"Queremos o mundo e o queremos agora!"*
*obs.: essas palavras foram extraídas da canção "When the Music's over", que está no primeiro álbum - "The Doors"
Como a juventude da época poderia não reconhecer essas palavras?
Isso aconteceria se não dessem crédito à encenação do artista, à dramatização de sua interpretação e de seu canto, às suas provocações libidinosas e gestuais. Não acreditando em seus atos. Pois, essas representações públicas do artista não eram, apenas, ações de criação poética, mas sobretudo, de transgressão.
Esse desejo de transgredir, de atravessar o limite de todas as coisas, reaparece ao longo de todo o percurso de vida de Jim Morrison, o rebelde.
-Contra a Lei dos Pais -
Jim sempre teve uma grande oposição a seu pai e às idéias que ele encarnava.
Mesmo uma possível lembrança positiva que pudesse ter dele, apenas salientava uma certa diferença com o caráter de sua mãe, mas não o redimia de suas possíveis faltas.
A revolta de Jim por seu pai é de uma fixação notável e irá difundir-se, progressivamente, por todos os valores emblemáticos de poder e pelos valores da sociedade americana da época.
Ele possui uma rebeldia, uma revindicação fálica, que destina a todos os atributos do poder.
Essa falha na simbolização que Morrison possui e que o faz chegar paulatinamente a comportamentos de oposição é dirigido: em primeiro lugar, aos valores de seus pais, que ele não aceita, mas sobretudo, aos valores impostos pelas autoridades escolares, dos colégios ou universidades.
Depois disso, ele irá frequentemente apresentar comportamentos de embriaguês pública ou de porte de drogas.
Quando, então, Jim se tornar um cantor, sua atitude de provocação e desafio à autoridade crescerá ainda mais.
Esse tipo de atitude está, evidentemente, diretamente relacionada com os aspectos destrutivos e autodestrutivos de sua personalidade.
Ele se compara, voluntariamente, a um arco destendido pelos anos e que se pode romper com um só golpe. Isso se deveria à energia extraordinária que Jim empregava em sua criatividade, como também em sua destruição, nesse período de sua vida.
Durante uma entrevista, lhe foi proposto para que apresentasse sua filosofia de vida.
E ele respondeu:
"- Eu sempre falei sobre a revolta contra a autoridade. Eu amo as idéias que remetem à destruição ou ao processo de se subverter a ordem estabelecida. Eu me interesso por tudo o que se refere à revolta, ao caos, e, sobretudo, às atividades que não fazem sentido algum."
Ele acrescenta provocativo, mas também tentando mostrar um outro ponto:
"- O mundo, que nós sugerimos, é um novo Oeste selvagem. Um mundo cruel e sensual, estranho e sufocante."
Esse lado rebelde também se desenvolveu em Morrison a partir da adoração que ele tinha pelo perigo e pela apologia à utilização de drogas, principalmente as alucinógenas.
Ele é, fortemente e ferozmente, antimilitarista.
Numa época em que os Estados Unidos estavam atolados na guerra do vietnan, tão mortal como impopular para a juventude, Jim escreveu várias canções engajadas, como por exemplo: "Unknown Soldier"(Soldado Desconhecido).
Várias vezes, ele incitou a juventude contra os adultos, chegando mesmo a propor uma rebelião organizada na canção "Five to One", onde evocou a relação de forças entre um e cinco, afirmando "eles têm os fuzis, nós temos o número."
Nessa época, os concertos dos Doors produziam transbordamentos de agressividade por parte do público, fortemente estimulado por Morrison que os provocava a se rebelar e acordar.
Os aborrecimentos com a polícia tiveram início e prosseguiram com a retirada de Jim dos palcos, às vezes durante um concerto, e depois através de processos criminais que ameaçaram a liberdade de expressão do Grupo e a liberdade individual de Jim Morrison.
Essa revolta contra o autoritarismo possui nuances de uma atitude superficial de rebelião adolescente, na qual uma geração deseja tirar satisfações daquela que a precedeu. E era assim que agiam os adolescentes que adoravam os Doors, imitando o astro e herói que se opunha à autoridade.
Por seu lado, a sociedade americana entendeu toda essa manifestação de rebeldia e insurreição, como um tremendo perigo a seus valores. Desta forma, essa contestação, trazida pelos Doors e personificada em Morrison, deveria ser radicalmente reprimida.
Entretanto, sempre é possível uma outra interpretação diante da personalidade, dos discursos e dos comportamentos de Morrison: diz respeito à estrutura básica de um indivíduo permanentemente em busca de novos limites.
Era ele um príncipe dos excessos, campeão de provocações, desbravador de fronteiras, ou apenas um herói exaurido dando seu último suspiro?
- O Relacionamento impossível com sua Mãe -
A primeira mulher que teve importância na vida de Morrison foi, sem dúvida, sua mãe.
Ela encarnava o pólo arcaíco de sua relação com o outro e de seu jeito de sentir as pessoas que o rodeavam.
Ela representava aquilo que Freud denominava "das Ding" e que Lacan traduziu pela expressão "a coisa", algo que se situaria entre a mãe e uma colocação infraverbal da qual não se possui nenhum conceito.
É sabido que Morrison emprestou à sua vida um caminho estreito, que se situava entre os registros do real e do imaginário, atingindo as portas do simbólico.
Resta saber se, quando Jim atingiu essa dimensão, a relação original com sua mãe permaneceu a mesma.
Qual precipício, na metáfora paternal, conduziu Morrison através desses dois mundos dos quais ele evoluiu?
Apesar de seu pai carregar as insígnas da potência e do poder, Jim sentiu falta de sua influência na realidade.
Isso ocorreu não apenas devido às suas ausências constantes, mas sobretudo porque ele assumia tão somente uma faceta de sua personalidade, mostrando-se como um pai severo e repressor.
Ele nunca tentou realmente compreender seu filho e suas diferenças.
Ele queria simplesmente servir de exemplo ideal a seus filhos, sem tentar transmitir qualquer coisa de sua própria experiência ou de seus sentimentos.
Seu pai era totalmente voltado para o trabalho, sacrificando sua relação com a família e assumindo pouco o seu papel de educador e genitor.
Morrison não evoca diretamente a lembrança de seu pai em seus textos, mas permanece célebre a passagem registrada na canção "The End", onde ele declama:
"Father? (Pai?)
- Yes, son. (Sim, filho)
- I want to kill you" (eu quero te matar)
Ao qual se junta, após alguns compassos da música:
"Mother, I want to fuck you...."(Mãe, eu quero te fuder....)
Na versão musical gravada deste trecho, Morrison não pronuncia a palavra "fuck", mas em seu lugar emite um longo e sentido grito que lembra um intenso desespero.
A palavra por si só é impronunciável, referindo-se a uma mãe.
Devido à forte censura da época, Jim não podia mencionar explicitamente o vocábulo, que carrega como significado um desejo incestuoso.
Então, quando houve um concerto dos Doors e a mãe de Morrison veio para vê-lo, ele se recusou a conversar com ela antes do show, apesar de já fazer três anos que não a via.
Talvez o motivo de tal recusa tenha a ver com o fato de que ele iria cantar essa canção diante dela, e, desta vez, pronunciando distintamente a palavra "fuck".
Quanto a seu pai, ele o via muito pouco.
Até a idade de dezessete anos, Jim aceitava se vestir adequadamente, cortar os cabelos para ver seus parentes e ir ao navio que era comandado por seu pai.
Após esse episódio, ele não verá nunca mais seus pais, recusando todo o contato com eles.
Para os pais de Jim, o comportamento do filho sempre pareceu infantil e estranho, pois para eles o que realmente importava eram os valores comuns de tradição e respeito às normas estabelecidas.
Entretanto, deveria provavelmente existir uma falha no discurso maternal, para que a mãe de Morrison pudesse preencher de uma maneira bem particular o lugar que deveria estar ocupado pelo pai, sempre ausente.
É precisamente nos entremeios dessa falha que a busca de Jim se situa.
Suas dúvidas lhe renderam uma distância sutil desse objeto maternal primário, do qual ele teve o mal de se libertar muito drasticamente.
Essa distância do objeto maternal, que normalmente deve ocorrer, é, na verdade, o espaço necessário que deve existir, para que a personalidade e subjetividade de um indivíduo comece a se formar.
Entretanto, é possível conjecturar, que ela foi deficiente para nosso herói.
É,justamente, no jogo simbólico dessa distância, que a "psique" de uma criança se constrói.
Ela irá possuir estabilidade afetiva a confiança em si mesma, se as condições necessárias a esse amadurecimento estiverem presentes e, principalmente, se a mãe for suficientemente amorosa.
O contrário de ser suficientemente amorosa é ser suficientemente severa, ou seja, capaz de aferir castigos e reprimendas que, ainda assim, permitam ao sujeito buscar um sentido entre as palavras pronunciadas e as situações; entre os afetos aprovados e as expressões ditas. Em outras palavras: coerência.
Baseados nesses conceitos, podemos tentar retratar passo a passo as etapas do relacionamento de Jim com sua mãe, apesar dos poucos elementos que dispomos a respeito disso.
Através, principalmente, da obra de Jim e do que foi sua vida, propomos uma reconstrução de sua história e uma compreensão diferente de seu destino.
O princípio de um amor excessivo é inviável.
No entanto, a idéia de uma grande proximidade a esse objeto maternal, por sua vez, aproxima e ao mesmo tempo distancia.
A tentativa de reencontrar essa proximidade ao objeto é ainda recuperável na lembrança de sua mãe.
A busca de Jim pelo outro lado não seria a mesma que se tem diante de um espelho, onde se observa o outro lado de uma imagem?
Essa busca se situa entre os dois caminhos que ele explora: a música e a linguagem.
A música o levou ao sucesso, mas sem as alegrias e plenitude que ele esperava.
Sua experimentação das palavras, através de seus escritos poéticos, vem colocar uma outra questão.
Como as palavras puderam lhe oferecer uma carga afetiva específica e um ponto preciso de apoio ao nível do simbólico?
Jim permanecia constantemente na fronteira entre os dois mundos, à margem da substância do real que é limitada de forma aleatória pelo simbólico.
Essa exploração estava estreitamente relacionada à natureza particular do vínculo que se estabelecia com sua mãe. E é também a partir dessa matriz original que ele buscava comportamentos específicos em relação às mulheres.
Se é usual afirmar que em amor as histórias se repetem, seria possível dizer aqui que, para Morrison, elas rimavam?
- As Mulheres e a Repetição
"Se um ensaio biográfico deve penetrar até à inteligência da vida psíquica de seu herói, ele não deve - como é o caso da maior parte das biografias, por discrição ou prudência - silenciar-se diante das características da vida sexual do sujeito"
Freud
O relacionamento de Jim com as mulheres foi complexo, envolvendo numerosas facetas contraditórias.
É certo atribuir a esses relacionamentos um longo desenvolvimento, visto que, como afirmaria Freud, o amor e a sexualidade ocupavam um lugar central tanto em sua vida como em seus escritos.
Nós iremos evocar a relação extremamente ambivalente de Morrison com sua mãe, um envolvimento de amor e ódio.
Os laços que ele mantém com as mulheres são conflitantes, mas o que acaba dominando é a coexistência de duas tendências antagônicas: de um lado a obsessão de um relacionamento com uma mulher, Pamela Courson - único, verdadeiro, profundo e durável amor de James; e de outro, a multiplicidade impressionante de suas conquistas amorosas, tornando-o um verdadeiro Don Juan.
Esses dois lados coexistiam em Morrison: o amante apaixonado pela poesia, pelo amor e pela pureza; e o homem ávido por conquistas e novas experiências, tentando, nesses encontros efêmeros, saciar uma sede incontrolável pelo desejo, mas que, mesmo na repetição constante dessas aventuras, nunca conseguia obter a satisfação total.
Sua primeira coletânea de poesias foi uma edição de 500 exemplares, publicada no mome de James Douglas Morrison, e dedicada à Pâmela Courson, sua alma gêmea, sua amante cósmica.
Ele a conheceu muito cedo, logo depois que a banda foi formada. Jim se deixou seduzir pela beleza frágil e pela graça daquela jovem, que era também apaixonada, como ele, pela literatura e poesia.
Durante todo o tempo em que durou o relacionamento de ambos, ela permanceu como uma guardiã de sua poesia.
Pâmela foi capaz de se manter na retaguarda, várias vezes, pelo bem de todos; mas ela sempre encorajou Jim a seguir seu caminho de poeta, indo contra todas as tentativas que procuravam desestabilizar o vocalista para esse objetivo.
Certa vez, ela chegou a declarar, que era uma criação de Morrison.
Aparentemente, esse casal parecia desequilibrado, mantendo-se entre a forte personalidade e o caráter totalmente imprevisível de Jim, e a figura frágil, bastante introvertida e reservada de Pâmela.
Ela permaneceu até o fim ao lado de Jim, acompanhando-o nos melhores e piores momentos de sua vida.
Pâmela Courson e Jim Morrison
Evidentemente, Pâmela teve que suportar seus constantes afastamentos, e teve também que se opor aos outros membros dos Doors, que o mantinham, algumas vezes, muito longe ou o encorajavam até o fim em seus excessos.
Ela se entregou rapidamente às drogas, viciando-se em heroína.
Apesar dos numerosos relacionamentos de Morrison com outras mulheres, ela permaneceu sempre perto dele; e ele sempre retornou para ela como um viajante a um porto seguro.
Pâmela classificava as poesias de Jim; enumerava os vários cadernos onde ele escrevia alguns comentários; anotava suas impressões a respeito de vários projetos, às vezes, sem qualquer perspectiva futura de ser executado; explicitava cenários de filmes que poderiam um dia ser produzidos.
Ela o conduzia e amparava através de todas as tempestades, para que ele pudesse seguir em seu trabalho de escritor e retornasse à poesia, longe da turbulência do "show-business" e de todos os inconvenientes aí existentes.
É ela que o incentivará a partir para Paris a fim de se concentrar em sua criação poética.
Apesar da curiosidade que gera os inúmeros acontecimentos da vida de Jim Morrison, é preferível nos deter na análise de sua poesia, pois ela transmite maravilhosamente toda a problemática que envolveu sua existência.
Um poema, entre outros, ilustra essa procura sem fim de Jim pelo prazer e pela mulher.
The Crystal Ship
(O Navio de Cristal)
"Avant que tu ne sombres dans l'inconscience"
(Antes que você penetre na inconsciência)
"Je voudrais un autre baiser"
(Eu gostaria de receber um outro beijo)
"Une autre chance éclair vers la félicité"
(Uma rápida oportunidade para a felicidade)
"Un autre baiser, un autre baiser"
(Um outro beijo, um outro beijo)
"Les jours sont clairs et remplis de peine"
(Os dias são claros e plenos de inquietação)
"Enveloppe-moi dans ta douce pluie"
(Envolva-me em sua doce chuva)
"Cette fois où tu es partie fut trop insoutenable"
(Aquela vez, quando você partiu, foi muito insuportável)
"Nous nous retrouverons, nous nous retrouverons"
(Nós nos reencontraremos, nós nos reencontraremos)
"Ô dis-moi où se trouve ta liberté"
(Oh, me diga onde se encontra sua liberdade)
"Les rues sont des champs qui ne meurent jamais"
(As ruas são campos que nunca morrem)
"Délivre-moi des raisons pour lesquelles"
(Entregue-me as razões pelas quais)
"Tu préférais pleurer"
(Você prefere chorar)
"Je préférais fuir"
(Eu prefiro voar)
"Le vaiseau de crystal se remplit"
(O navio de cristal encheu-se)
"Un millier de filles, un millier de frissons"
(Um milhão de garotas, um milhão de desejos)
"Un million de façons de passer le temps"
(Um milhão de maneiras de passar o tempo)
"Quand je reviendrai, j'enverrai un mot"
(Quando eu retornar, enviarei uma palavra)
Assim, ele evoca sua busca desesperada pelo prazer, do qual sente um enorme vazio: " Eu gostaria de receber um outro beijo........uma rápida oportunidade para a felicidade."
Essa busca sem fim encarna a fragilidade de seu subjetivismo, sempre procurando encontrar o instante mágico, o instante absoluto, mesmo se para isso for preciso passar por novas e constantes experiências com as mulheres.
A beleza desse texto remete também à dificuldade da separação e à dor que ela provoca.
"Os dias são claros e plenos de inquietação
Envolva-me em sua doce chuva
Aquela vez, quando você partiu, foi muito insuportável
Nós nos reencontraremos, nós nos reencontraremos"
Aqui, ele provavelmente fala de uma mulher presa em seu coração, mas que está muito longe. Então, ele reprime e encerra seu discurso que poderia se tornar maravilhoso.
"O navio de cristal encheu-se,
Um milhão de garotas, um milhão de desejos
Um milhão de maneiras de passar o tempo
Quando eu retornar, enviarei uma palavra"
Neste trecho, pensa-se imediatamente em Don Juan e no número de suas conquistas, que na ópera de Mozart atingiu a marca de três mil. E a cada reencontro surge um desejo novo, uma outra maneira de passar o tempo.
Jim continua a acreditar que existe um mundo feito de deleites infinitos.
Para encontrá-lo é suficiente subir nesse navio, símbolo de felicidade sem fim, do qual se pode retornar, na medida em que se pode nomear uma palavra de retorno.
Entre os diferentes tipos de mulheres que ele encontrou em sua vida, existe um tipo com o qual ele manifestou alguma dificuldade.
Uma canção "Twentieth Century Fox" a consagrou.
Seu título contém uma homofonia, que encerra um duplo sentido para a palavra "fox" - raposa - que na gíria significa uma mulher libertina, sensual e excitante, que se pode traduzir do francês como "galinha" ou "puta".
Certamente, Jim brincou com a semelhança sonora entre essa palavra e o nome da famosa companhia de produção cinematográfica americana.
"Ni larmes, ni frayeurs, ni années gâchées"
(Nem lágrimas, nem medo, nem anos arruinados)
"Ni montres, c'est une twentieth century fox"
(Nem horas, ela é uma twentieth century fox)
"C'est la reine du cool, et c'est une dame qui sait attendre"
(Ela é a rainha do cool, é uma senhora que sabe esperar)
"Depuis qu'elle a quitté l'école, son esprit n'a jamais hésité"
(Depois que ela abandonou a escola, seu espírito nunca mais hesitou)
"Elle ne perd pas de temps en simple bravardage"
(Ela não perde tempo em tagarelice)
Nós podemos reconhecer um tipo particular de mulher, que se pode qualificar de narcisista e que não parece se interessar por outra coisa a não ser ela mesma.
É provável que, em alguns de seus encontros femininos, Morrison tenha conhecido mulheres desse tipo, e que certamente resistiram a todas as suas tentativas de sedução.
Diferentemente das "groupies", que fazem tudo pelos seus ídolos, essas mulheres individualistas, receosas de sentir prazer, de mostrar a melhor imagem delas mesmas, são frequentemente, como a prática psicanalista mostra, incapazes de amar o outro.
É precisamente isso que Jim reclama: ser amado. E não apenas pela imagem que ele representa - um astro de rock mundialmente conhecido - mas também por ele mesmo, pela pessoa que ele é com seus erros e sofrimentos.
Através dessa poesia, cuja versão cantada foi um verdadeiro sucesso, ele parece se vingar também da insatisfação que esse tipo de mulher lhe oferece. (cont.)
enviada por Nicinha
19/08/2008 21:30
Jim Morrison - L'état Limite du Héros
Uma das minhas maiores qualidades é a pretensão.
Realmente, acho que posso tudo e que consigo tudo. É uma forma megalomaníaca de viver e que me traz grande alegria. Se por acaso não faço ou não obtenho algo, é porque não desejei de verdade aquilo.
E assim vou me esmerando...e acreditando...e vivendo feliz...
Entre minhas crenças de possibilidades infinitas está essa: traduzir um estudo meio psicanalítico, meio social, sobre o grande vocalista do grupo "Doors" - Jim Morrison, do francês para o português. "Tarefa ingrata", dirão. De forma alguma! Não será pior do que a outra versão que já faço, de um livro em inglês, deste meu querido ídolo!
Como podem notar, sou mesmo irracional...
Bem, chega de elogios e vamos botar mãos à obra!
Não só espero, como exijo, que gostem deste trabalho.
Desculpem a imodéstia...mas, Jim Morrison sempre quis ao seu redor um séquito de fãs inteligentes...de minha parte, jamais teria a coragem de contrariá-lo.
(Posso começar amanhã?!
Tô com sono agora...)
Beijinhos
Bem, vamos lá então...
Jim Morrison
A Condição Limite do Herói
Autora: Didier Lauru
Introdução
Homem apaixonado pelo absoluto e pela liberdade, o poeta James Douglas Morrison não encontrou outro sentido na vida, senão aquele ligado à superação de todos os limites, chegando a queimar as próprias asas na aproximação da morte.
O poeta revela uma primeira verdade, uma força que habita em cada um de nós, que designa o âmago de nosso desejo. Essa verdade que procuramos, a maneira mais contundente, mais viva, a adolescência.
Morrison lhes devolveu as dúvidas que eles tinham sobre si mesmos e sobre as fronteiras da loucura.
Ele respondeu à sua maneira à questão adolescente: eu sou louco?
Morrison é, sem dúvida, a criança de seu século, que como artista e poeta, devolveu à sua maneira brilhante e poética a inquietação presente na civilização atual.
Por que este eterno adolescente revoltado atrai ainda a juventude?
Precisamente porque ele não envelhece e permanece para sempre jovem em seu psiquismo e em seu discurso. Ele mostra os sonhos mais loucos que transbordam dos medos insensatos.
James Douglas Morrison extraiu uma matéria-prima de suas
angústias e a partir dela elaborou um objeto cultural inteligente, sensível e poético.
Essa idéia teve a capacidade de vibrar no mesmo nível das preocupações do jovem contemporâneo, a ponto de percorrer várias gerações e ainda persistir nos dias atuais, superando todos os modismos e sucessos repentinos e consumistas deste novo milênio.
Em que o discurso psicanalítico vem interferir neste processo cultural?
Como uma leitura psicanalítica de uma obra ou de um personagem pode levar à sua compreensão? Freud já respondeu a esta questão:"A psicanálise reconhece ser digno de estudo tudo aquilo que diz respeito aos elaborados modelos humanos, e pensa que ninguém deva sentir-se envergonhado por saber estar submisso a leis, que regem, com o mesmo rigor, a doença e a normalidade."
Entretanto, a visão não se aplica a uma grade de leituras, mas em tentar uma correlação entre os processos apresentados nas curas analíticas e as manifestações descobertas em uma obra, autorizando um enriquecimento recíproco.
A investigação psicanalítica conjuga-se apenas na singularidade da relação que ocorre na cura ou que se apresenta através do estudo de uma figura carismática.
No caso de James Douglas Morrison, ela se apresenta também a partir de sua ascensão ao "status" de ídolo e, a partir deste, à figura do herói.
Em uma primeira leitura, a importância da impulsão, aquela que se refere à revolta contra a autoridade paterna, leva a atribuir a Morrison a categoria de um eterno adolescente. Contudo, a partir de declarações de seus companheiros, da leitura de inúmeras entrevistas que ele concedeu, e sobretudo do material bruto que representa o texto de suas poesias, uma segunda hipótese se faz hoje, situando Morrison numa categoria particular, indicativa de um estado limite.
Entretanto, não se discute a confabulação de um diagnóstico que seja adequado a ele, mas de se tentar mostrar uma outra visão, na qual se imagina a sua figura de herói e a da persistência do mito.
Em sua vida, ele foi um ídolo da juventude, cuja popularidade o igualou aos maiores grupos musicais dessa época.
As circunstâncias de sua morte, sua personalidade, as mensagens veiculadas em seu discurso como em sua obra escrita, fizeram dele um herói mítico.
Mas o mito não pode existir e só consegue consistência quando está inscrito e enraizado na cultura de seu tempo.
O estado limite, as rupturas, as passagens à ação, o desejo pelos excessos e pelos tóxicos, refletem bem o estado da subjetividade contemporânea.
Este estado limite do simbólico e da ligação delimitada pelo social caracterizam nossas sociedades.
Era, sem dúvida, isso que Morrison desejava tornar, de tal forma, vivo, que lhe seria necessária a transgressão para continuar a existir. Tal como aqueles que apreciavam, e que ainda apreciam, saber captar esta mensagem de beleza, de esperança na vida e no amor, de desespero frente à maldade do mundo e da infinita distância entre os seres.
O poeta, assim como o artista, não está sempre sozinho.
Em cada um, ele coloca a consciência de sua verdade.
Ele exprime, através de sua criatividade, uma linguagem universal e, por possuí-la, carrega em si os significados dos outros.
Ele, que desejava estar no limiar da percepção, termina subjetivamente enfermo em seus próprios limites, que ele tentou, desesperadamente, deixar no sensível e entre os vivos.
A JUVENTUDE DO ÍDOLO
"É o primeiro ato da tragédia que parece ter sido escrito desde as origens."
O Nascimento do Herói
Um herói, seja ele real ou imaginário, deve ter pais verdadeiros antes de os renegar ou trocar por outros.
Os pais reais de James Douglas Morrison, aliás, Jim Morrison, são especiais, e suas personalidades tiveram uma influência notável sobre seu destino.
James é o filho mais velho entre três crianças, das quais uma menina, Ann, e um menino, Andy.
Sua mãe o educa sozinha a maior parte do tempo, pois seu pai, oficial da marinha, encontra-se constantemente ausente, além de ser também o mais jovem almirante da frota americana. Ele é descrito por muitos como possuidor de uma grande rigidez e também pouco comunicativo. Ele nunca compreende seu filho, que revela, logo cedo, seu gosto pelo estranho e pelo diferente.
Alguns relatos mostram que a frieza, a ausência de afetividade ou de demonstrações emotivas eram características, não somente de seus pais, mas também de seus avós maternos, que eram sempre vigilantes. Nada de fumo, nenhuma gota de álcool é autorizada na casa de seus avós, de acordo com a mais estrita tradição puritana protestante. Seus pais não deixavam seus filhos conversar à mesa nem se mexer.
James é, desde cedo, uma criança estranha, distante, fechada e tímida.
Uma das lembranças de infância merece atenção especial à medida que Morrison a evoca repetidas vezes.
Nós veremos qual característica lhe atribuir: a de lembrança real, projetada ou reconstruída?
É sempre ela que nosso herói revive em inúmeras ocasiões.
As Almas dos Índios Mortos
"Meus pais, meus avós e eu atravessamos o deserto em um carro durante a madrugada.
Um caminhão cheio de índios tinha batido em um ônibus. Havia índios feridos por toda a estrada, sangrando até à morte. Eu era apenas uma criança e fui obrigado a permanecer no carro, enquanto meus avós foram ver o que tinha acontecido.
Tudo o que eu vi era aquela estranha pintura vermelha e pessoas estendidas, mas eu sabia que havia acontecido alguma coisa, pois eu sentia a vibração.
É a primeira vez que eu experimentei o medo.
Eu penso realmente, que uma ou duas almas desses índios mortos giraram ao redor de mim, em pânico, e se refugiaram dentro de mim mesmo.
Eu era como uma esponja, pronto a tudo absorver."
Este é o texto original.
Antes de arriscar uma possível interpretação, é necessário dar uma pausa para compreender como essa lembrança influiu sobre o destino de nosso herói.
Ele escreverá, em "Peace Frogs", uma canção cujas palavras se referem a essa lembrança.
"Índios espalhados pela estrada durante a madrugada
Fantasmas sangrentos encombrem o espírito da jovem criança, frágil concha."
Encontra-se, aqui, a representação que ele faz de si mesmo e de sua extrema fragilidade infantil.
Morrison gravou uma outra versão desses poemas, sem música, sozinho no estúdio.
Após sua morte, os Doors quiseram musicar esses textos gravados.
O texto de Morrison dá uma outra versão a esta cena e fornece elementos para a interpretação.
"Era a primeira vez
que eu sentia medo, eu devia ser uma criança de quatro anos que,
como uma flor, seu rosto flutuava no ar, amigo.
A sensação que agora eu tenho, olhando para trás,
é que as almas dos fantasmas desses índios
mortos...talvez um ou dois deles...estavam espalhados, errantes, e
acabaram penetrando em meu espírito.
E eles estão aí até hoje.
Os índios espalhados na madrugada pela estrada sangrenta
Fantasma se insinuando no espírito da jovem criança, frágil concha.
Índio, Índio, por que você morreu?
O índio diz - por absolutamente nada."
Nesta versão, são os índios que, curiosamente, nada dizem a seu respeito. Mas ainda é visível a constância da fragilidade e da permeabilidade do espírito da jovem criança.
As crenças que ele encontra, por ocasião deste acidente, sobre a vida e a morte, permanecerão como primeiro plano de suas preocupações ao longo de toda sua existência.
A lembrança e o Esquecimento
Esse acidente, de fato, ocorreu.
A lembrança é obscura, pois ele não viu muita coisa, como o próprio poema mostra.Inclusive os adultos, pais e avós de Jim, refugiam-se no mais absoluto silêncio.
Quais foram os comentários desses adultos sobre o que eles viram de verdade, de realmente traumatizante?
Em uma de suas biografias("Jim Morrison - O Rei Lagarto"- J.Hopkins"), ele relatou que seu pai teria dito pouco depois: "Foi um sonho. Tudo aquilo realmente não aconteceu. Não é verdadeiro. Você teve um pesadelo, foi isso".
Entretanto, é provável que os adultos tenham falado de suas amarguras, mas através do prisma de seu puritanismo, pois a emoção não devia ser confessada.
A frase de seu pai viria apoiar a hipótese de um esquecimento da realidade, que ele teria proposto à criança no intuito de acalmar sua aflição.
É precisamente este o ponto crucial, essa carência de palavras que teriam se cristalizado em vazio, esta ausência em dizer, que impede de se fazer a correlação entre as emoções sentidas e a realidade. O amor de Jim pela poesia e pela linguagem encontra aqui uma de suas principais causas e fixação.
Assim, o lugar é deixado livre para a imaginação.
Morrison irá desenvolvê-la de forma privilegiada, talvez excessivamente, mas é ela que lhe permitirá exprimir sua criatividade. Como nessa interpretação dos povos indígenas e na possessão de seu espírito por eles.
A metáfora da esponja, disposta a tudo absorver, está bem vinculada à da criança vazia de informações para narrar os acontecimentos, que os adultos ao redor recusam-se em comentar. É também uma forma de identificação que se refere à ausência de palavras dos adultos, que estão impossibilitados de traduzir suas próprias emoções.
Devido a tudo isso, um sentimento de insegurança desabrocha na criança. Uma angústia que não tem limite, pois a palavra do adulto não tem o valor da segurança. Assim, a criança está entregue a si mesma na vivência de sua ansiedade e deverá encontrar, por si só, os reparos que podem cercar o campo da realidade e limitar a angústia.
Mas, no centro do perigo, não se cerceia mais a angústia, mas sim,o possível ódio pelo outro, por aquele ou por aqueles que ,necessariamente, não puderam segurar essa angústia.
"Você é meu filho, permaneça assim"
Em um poema, Morrison descreve uma cena que parece inventada, mas que nos esclarece sobre seus "fantasmas".
Ele se vale de um longo poema intitulado - "Anatomia do Rock" - publicado em 1970 na revista americana "Jazz e Pop".
"Quando eu ainda era um menininho de cinco anos
Um dia, indo me deitar,
Eu escutei mamãe e papai discutirem
Ela dizia:
É preciso segurar esse rapaz, ele irá muito longe.
Ele se tornará um selvagem, deve-se pará-lo.
Eu estava me deitando, eu escutei isso e eu me senti mal.
Você compreende, todos vocês, isso me fez mal.
Mamãe não gostava do caminho que eu trilhava
A velha senhora, ela não aceitava aquilo
Mas meu pai era marinheiro, ele voltou o rosto para mim e disse:
Você é mesmo meu filho, permaneça assim.
Ame, ame, ame, ame, meu pequeno, esta noite".
Temos ,assim, esta lembrança antiga, equivalendo a uma cena primitiva, onde seus pais conversam sobre ele. Sua mãe evoca suas preocupações e seu pai a tranquiliza.
É uma das raras ocasiões na qual Morrison apresenta a figura de seu pai de maneira positiva. Diante da incompreensão de uma mãe preocupada com o jeito estranho de seu filho, ele é apoiado por seu pai, que se identifica com ele.
O "fantasma" tem, assim, seu lugar, que nós podemos situar durante esta época, pois aqui ele se mostra, nesta lembrança reconstruída e poética dos sentimentos positivos com relação a seu pai.
Este é um fato isolado em sua obra, pois em seguida e ao longo de toda sua vida, ele irá nutrir por seu pai um ódio constante.
Sua mãe é pouco presente em seus escritos ou em suas declarações, exceto na canção edipiana, onde ele deseja fazer amor com ela e matar seu pai("The End").
Morrison evoca, constantemente, as relações de incompreensão mútua com seu pai. Como sua trajetória e seus escritos atestam, ele sente uma necessidade irresistível de se opor a seu pai e a tudo que represente a autoridade.
Ele declarará, logo cedo, sobre perguntas que lhe são feitas a respeito de seus pais, que ele é órfão. Mas isto também faz parte do mito em construção.
Um herói não pode ter pais verdadeiros. Eles devem ser ou extraordinários, ou ausentes ou mortos.
Assim, James Morrison é quem faz a escolha desse destino.
Teria ele outra opção?
O Gosto pelo Perigo
Morrison evoca, repetidas vezes, uma outra lembrança da infância um pouco mais tardia.
É em 1953, em Los Angeles, para onde seus pais se mudaram.
Ele tem dez anos e já aprecia o perigo.
" Entrei num trenó com meu irmão e minha irmã - ele escreve - O trenó despenca e ganha rapidamente velocidade. Ele vem descontrolado. Choca-se, estraçalhando-se, contra a parede de uma cabana. Andy e Ann querem saltar com o trenó em movimento. Eu os seguro por trás. Andy grita. O trenó pára sozinho sobre um declive. Eu acabo de descobrir o prazer supremo de dominar o pânico."
A partir desta lembrança, ele nos demonstra um desejo de ir ao fundo do medo e de provar os limites da realidade na intimidade do perigo.
Ele se colocará, ao longo de toda sua vida, naquilo que é denominado hoje como "conduta de risco".
Esse apego pelo perigo, às vezes até insensível, foi a faculdade que o fez experimentar de novo a realidade da vida para aproximá-lo da morte. Como se a vida não fosse suficiente para lhe dar o sentimento de sua própria existência. Desta forma, estando levemente embriagado, ele até simula uma corrida de carro, no meio de Sunset Boulevard, principal artéria de Los Angeles.
Este é um dos inúmeros exemplos de sua procura pelos riscos e de sua vontade de desafiar a morte através de condutas extremadas.
O Adolescente Rebelde
O Colégio é para ele uma primeira oportunidade de mostrar sua diferença e de se abrir a outras culturas mais próximas de suas aspirações.
"As pessoas são estranhas, quando se é um estranho
Os rostos parecem disformes, quando se está só".
O rapaz deve se adaptar às frequentes mudanças ligadas à atividade de seu pai e encarando o encontro com os outros sempre numa tentativa de se ajustar.
Mas, juntamente com esta realidade, existe também a dificuldade de se apreender o enigma do que o outro é.
Ele reproduz nesta canção:
"Quando se é estranho, rostos surgem na chuva,
Ninguém chama seu nome,
Quando se é estranho".
É o encontro com o outro que devolve a estranheza ou, como Freud a formula, "a inquietante estranheza".
É a parte do desconhecido que cada um percebe diante da realidade que se reflete no desconhecido que habita no fundo de cada um.
Morrison é, sem dúvida, bastante perceptivo com aquilo que emana dele mesmo, do incomum e da estranheza de suas próprias sensações e pensamentos.
Ele evoca a problemática do desconhecido, no qual ninguém chama por seu nome.
A nominação ocupa nele um lugar central em toda sua trajetória, pessoal e de autor.
Apaixonado pela leitura, ele vai se dedicar inteiramente a bastante quantidade de obras de literatura, poesia e filosofia. Sem contar com o esoterismo, que o atrai, e ao qual ele se referirá seguidamente, em particular o "xamanismo" - ele se autoproclamará xamã repetidas vezes.
Ele é diferente dos outros adolescentes de sua idade.
Ele mostra sua originalidade tanto no seu relacionamento com os outros como nas questões disciplinares.
Ele é, em suma, um adolescente original e culto que se envolverá muito cedo com questões reivindicatórias muito radicais.
É sobre esta base de anti-autoritarismo e de poesia que James tenta se construir.
Desde esta época, a partir dos quatorze anos, ele começa a escrever abundantemente. Ele ama as palavras e as venera. Ele aprimora sua escrita tentando dominá-la, canalizar uma energia transbordante e uma necessidade imensa de ser amado. Ele tenta, ainda, traduzir aquilo pelo qual atravessa e, ao mesmo tempo, diminuir a distância que o separa das palavras e das coisas.
Ele passa por riscos, às vezes, imprudentes. Caminha ao longo das margens das rodovias. Ele é também especialista em gracejos, em crises de originalidade, que concorrem para marginalizá-lo. Conta a um de seus professores estupefatos, que possui um tumor cerebral. E, ainda se não bastasse, ele se opõe a todos os outros. Ele permanece à parte, voluntariamente se coloca distante dos outros, como um ser que não pode existir entre eles. Assume o estigma de "estranho" que se deu a si mesmo, como em "Pessoas são estranhas".
Em uma das melhores biografias - "Daqui ninguém sai vivo" - J.Hopkins e D.Sugerman, bastante documentada, tomamos conhecimento de que ele tem um QI muito elevado(149)e apresenta comportamentos ditos "bizarros" diante de seus professores e conhecidos, sem contar o interesse muito grande que possuía pelas garotas. Ele tenta conquistá-las, declamando-lhes poesias, fazendo gentilezas e depois as despreza.
Apesar do caráter bastante atípico desses comportamentos, é possível reconhecer neles o traço de uma crise adolescente.
Tomando-se o significado etimológico da palavra crise, percebe-se que ela é definida de um modo bastante pejorativo para descrever certo período da vida.
A palavra "crise" deriva do latim "crisis" como sendo "fase decisiva de uma doença". A palavra em latim tem uma correspondente em grego - "Krisis" - que significa "decisão, julgamento".
Crise é,pois, originalmente um termo médico que, por extensão, é aplicável ao domínio psicológico, no sentido de presença de manifestações violentas.
Ele será empregado especificamente em dois sentidos: o individual, relacionado à crise da adolescência; e o coletivo, em relação à crise econômica.
É importante notar que nestas duas concepções da palavra crise, o sentido que se dá a uma das expressões não condiz com o significado da outra.
Em relação à história particular de Morrison, a crise da adolescência está, efetivamente, indissociada do contexto da crise econômica, social e cultural do fim dos anos 60.
A crise da adolescência é uma terminologia que não caracteriza adequadamente o conjunto das problemáticas psicopatológicas que se apresentam na adolescência. É mais usual falar em crises no plural, para tentar melhor compreender a evolução gradativa e constante desse processo de maturidade e evolução que é a adolescência.
Os estudos secundários de Morrison na Virgínia(High School) são coroados por um diploma.
Em seguida, de acordo com seu interesse pela literatura, história da arte, poesia e também pela filosofia, James vai frequentar durante três anos a Universidade do Estado da Flórida.
Depois ocorre a ruptura: ele deixa seus pais definitivamente, contra a vontade deles. Não os verá nunca mais, recusando-se às inúmeras tentativas de reencontro sugeridas por eles.
De acordo com seu maior desejo, ele vai para a Universidade de Los Angeles(UCLA) em 1964, aos 21 anos, a fim de estudar cinema.
Ele cria filmes tão pretensiosos quanto estranhos, realmente cansativos. Mas lá, a distância que sente em relação aos outros ainda aumenta.
Ele se recusa a aceitar as críticas que lhe são dirigidas.
É obsecado por um ideal e intransigente com todas as opiniões contrárias à sua.
Não quer mais discutir assuntos banais ou com pessoas que não concordem com ele.
Durante seus anos de estudo, James continua a se distinguir por sua cultura bastante européia, voltada para a França.
Com efeito, ele nutre uma admiração ilimitada por Baudelaire, Rimbaud, William Blake, Shelley e os românticos, e também por outros autores como Nietzche, Artaud, e os precursores da geração beat: Ginsberg, Kerouac, etc...
Desta época, alguns de seus poemas escaparam da destruição que ele mesmo impôs à sua obra. As poesias sobreviventes compõem uma coleção intitulada "Senhores e Novas Criaturas".
De acordo com seu desejo, este livro é editado sob a assinatura de James Douglas Morrison, em 1969. É a primeira vez que ele assina e publica sob seu completo patrocínio.
A produção poética dos primeiros anos de sua adolescência não é assim tão forte, tão poderosa, que não pudesse esperar um pouco.
Sem dúvida, o próprio James iria querer em sua juventude atingir rapidamente um nível sublime de criação. Sua única ambição é o de ser poeta e de se realizar na escrita. Nós veremos mais tarde que, apesar do fato de ter se tornado um grande cantor, vai permanecer nele a frustração de não poder ser um poeta reconhecido.
Bastante tempo depois, ele relembra esses anos passados:
"Eu não havia jamais cantado. Eu não tinha mesmo jamais sonhado com isso. Eu queria ser escritor ou sociólogo, talvez escrever peças."
Seu desejo de escrever sempre permanece vivo, realizando-se no cinema, na canção ou na poesia.
Mas a metamorfose do letrista e cantor de sucesso em poeta será dolorosa e terá um preço.
Do Poeta ao Cantor
"Se minha poesia tem um fim, é o de libertar as pessoas de suas viseiras, de multiplicar seus sentidos"
James Douglas Morrison
Como um adolescente culto, original no seu mais amplo sentido, apaixonado por literatura, poesia, chegou a vocalista de um dos mais conhecidos grupos de rock do mundo, cuja notoriedade resiste à passagem do tempo?
Ao longo de seus estudos na Universidade de Los Angeles, a transição se efetua.
Ele escolheu essa universidade para estudar cinema.
Ele depende tão somente de si mesmo; mora no sotão de um imóvel ou em um pequeno quarto. Separa-se completamente de seus pais e não irá mais vê-los tão cedo.
Descobre diferentes drogas, principalmente a maconha e o LSD. Através delas, descobre os novos campos da consciência e das percepções inéditas.
Como era comum nesta época, ele usava essas drogas numa tentativa de aprofundar sua criação artística.
A Criação dos Doors
Um encontro vai modificar o destino de Jim Morrison.
Um estudante, Ray Manzareck, apaixonado por música e literatura se interessa por ele.
James recita-lhe suas poesias na praia de Venice.
Este instante é o início mágico de uma utopia sem precedentes.
Eles comentam montar um grupo de rock, de revolucionar o mundo e de ganhar muitos dólares.
Este sonho iria levar à criação de um dos grupos mais originais e mais poderosos de sua geração.
Quanto ao nome do grupo musical, que eles fundaram com dois outros músicos, John Desmond na bateria e Robert Krieger na guitarra, será decidido através da influência direta de Jim Morrison.
"Doors" é escolhido a partir de um poema de William Blake, do qual uma frase está contida no livro de Aldous Huxley "As Portas da Percepção".
Neste livro, o autor relata com detalhes muito precisos as deformações sensoriais e estéticas que a mescalina, uma poderosa substância alucinógena, tirada de cogumelos, acarreta e cuja síntese estava em alta naquela época.
Esse é um dos textos que melhor descreve os efeitos do uso de substâncias alucinógenas e que só poderia suscitar o interesse de Morrison e dos jovens de sua geração.
Foi retirada desse livro a seguinte frase de William Blake:
"Se as portas da percepção fossem abertas, todas as coisas apareceriam ao homem tais como são, infinitas...."
Jim Morrison se reconhece plenamente neste extrato de poema, ao qual dá sua interpretação, identificando-se com a porta:
"Há o conhecido e o desconhecido. Entre os dois há a porta e é ela que eu quero ser"
Aquele extrato de poema é apenas um enxerto solitário no livro de Aldous Huxley e é sem dúvida necessário que Morrison mergulhe nos livros de poesia para saborear a pureza original do texto de William Blake.
"Se as portas da percepção fossem abertas todas as coisas apareceriam ao homem tais como são: infinitas. Pois o homem está doente, à medida que vê todas as coisas através das estreitas fendas de sua caverna"
O homem que está enfermo em sua caverna, não é aquele que se contenta em permanecer no seu próprio espaço e em não explorar suas capacidades psiquícas, sensoriais ou relacionais?
Mas o campo das possibilidades reserva a cada um senão o infinito.
É, sem dúvida, o equívoco e a utopia de Morrison: acreditar que todos possam tudo.
Entretanto, os psicanalistas, apoiados em sua experiência cotidiana, observam que cada indivíduo se apresenta numa estrutura particular e é determinado por sua história pessoal e da sua família que lhe emprestam um certo número de significados. A pessoa se apropria inconscientemente desses significados que fazem funcionar sua estrutura interna.
Na poesia se discute a questão do registro perceptivo que manteria uma presença, assim como se fosse uma tela, que nos impediria de perceber a dimensão real de nosso mundo circundante.
Não é o imaginário que está aqui nomeado?
O limiar do imaginário é a porta, com uma visão pejorativa desta interface entre o homem e o real, e que seria nefasta, pois seria preciso ir para o outro lado para se perceber, enfim, o real.
É portanto a dimensão imaginária que dá ao homem sua humanidade e sua natureza desejosa; a condição que o impede de desembaraçar-se de um imaginário muito inquieto ou que impede seu funcionamento psíquico harmonioso.
Então, instala-se um período de criatividade.
Jim Morrison jamais estudou, ou mesmo praticou, a música ou o canto.
Ele se põe a trabalhar com o grupo, levando-o a sério.
Tudo isso acaba resultando em uma base musical, que se caracteriza por uma originalidade temática, sonora e, claro, linguística.
Com efeito, quase todas as letras dos três primeiros álbuns são creditadas a Jim Morrison. As criações musicais são coletivas. Mas ninguém assina em seu próprio nome a música ou as letras, e isso durará até que o grupo atinja o seu auge e que cada um se ponha a assinar suas próprias composições.
É assim que Jim Morrison se afasta de seu próprio nome anterior, que estava ligado ao nome do grupo escrito no plural: Doors.
Esse anonimato relativo lhe permite dedicar-se à literatura.
Não existindo artisticamente sob seu próprio nome, sem dúvida não consegue ir além de seus próprios limites.
Quando, mais tarde, ele recupera sua identidade, tanto ao nível das palavras, das canções, como da poesia, ele será vitimado por uma grande destruição e os efeitos do "desejo de morte" serão sentidos com força.
Esses anos são magníficos, a criação intensa, e existe presente uma grande energia construtiva.
Ao fim de um ano de preparações e repetições, o grupo começa a adquirir uma certa notoriedade.
Depois de ter sido lançado, ter suportado algumas rejeições, alguns tormentos inerentes ao meio artístico, o sucesso veio relativamente rápido.
O magnetismo do grupo está ligado a uma música original, mas sobretudo ao carisma e à presença estranha e envolvente de Morrison.
Seus excessos em cena, suas provocações, suas loucuras, suas extravagâncias verbais e comportamentais concorreram para lhe dar uma reputação mordaz e sedutora.
O primeiro disco dos Doors será facilmente um sucesso: muito rapidamente receberão o disco de ouro.
Após as quarenta e cinco turnês realizadas pelo grupo, a marca de um milhão de exemplares vendidos é rapidamente atingida.
O Lado Obscuro

Paralelamente, Morrison escreve poemas que se assemelham, às vezes, a um diário ou a comentários ousados de sua própria vida e de sua experiência singular.
O leitor se tornará, ainda, a testemunha dos fragmentos de sua vida amorosa ou imaginária.
Trata-se de uma intromissão violenta de um olhar exterior que reproduz o olhar do escritor ou poeta sobre si mesmo. Assim, pode-se cumprir a promessa de imortalidade das palavras do poeta.
Sua poesia é, ao mesmo tempo, clara e obscura.
Ele fala da noite ou da obscuridade, mas também da luz ou do dia.
"Você sabe que o dia destrói a noite, a noite divide o dia
Eu quis correr, eu quis me esconder
Rompa para o outro lado,
Rompa para o outro lado....."
Sua escrita é marcada por uma obscuridade que revela nas entrelinhas aquelas palavras que se escondem, se deixando derivar até o último ponto onde o sentido escapa.
Não se pode crer no amor.
Sua concepção de amor é passional por essência e desesperada por necessidade.
Como crer no sofrimento do amor?
Como confiar naquilo que é fonte de agonia?
Em sua correspondência, Heidegger, um famoso filósofo, escreve a seu colega Hannah Arendt:
"Você sabe qual é a mais difícil de todas as coisas que um ser humano pode suportar?"
E ele mesmo responde da seguinte maneira:
"Para todo o resto, há caminhos seguros, parapeitos para se apoiar. Ao passo que o acontecimento do amor, quando alguém diz a outrem - eu te amo - está, na verdade, querendo se apossar da própria identidade da pessoa"
O poeta confirma a opinião do filósofo,ou seja, o ser que quando ama fica sem defesas. Mas o poeta, por seu lado, tem a solução da escrita para resgatar a impossibilidade do amor.
Há dois caminhos que conduzem à vida: um é comum, liso, sem asperezas, regular, direito. O outro é disforme, passa pela morte, e é aquele da transformação mística ou do gênio.
É, sem dúvida, este último que Morrison quis tomar emprestado ao longo de sua vida.
Um outro poeta e dramaturgo que Jim igualmente admirava, Antonin Artaud, que sentiu na carne e no pensamento o começo da loucura, escreveu no seu "Prólogo ao Novo"
"Estas são as coisas crepusculares
Visões de fim da noite
Ó Verdade, você as clareia
Somente de uma madrugada que ilumina"
É provável que Morrison tenha lido este poema e se sentido em ressonância com esta visão crepuscular e transtornada da vida.
Ele tentou, influenciado pela leitura dos surrealistas, lançar-se à escrita mediúnica, sem resultados convincentes.
Para um vocalista de rock, que é também um autor e escritor, é necessário colocar a questão: porque optar pela música ao invés da poesia?
Quando um jornalista lhe perguntou se ele via alguma diferença entre a escrita de um poema e a escrita de um texto para uma canção, ele respondeu:
"Para mim, a canção vem primeiro, o som, o ritmo; então, eu escrevo rapidamente para poder permanecer fiel à impressão musical, até que música e palavras jorrem simultaneamente. Uma canção é algo mais primitivo. Geralmente, trata-se de um ritmo, de um compasso elementar, enquanto que o poema, por sua maior complexidade, pode ir aonde ele quiser."
Notamos que Jim é um autor extremamente prolixo.
Ele relembrou, nessa entrevista de 1969, as canções que havia escrito há mais de três anos. E também foi ele mesmo quem destruiu grande parte de seus escritos, ao perceber que não se atrelavam mais à sua visão de mundo.
Progressivamente, a fonte de sua inspiração foi secando, por diversas razões que detalharemos. Mas, por enquanto, é o poeta que fala, o aventureiro que explora os limites, as portas, o fim.....enfim, o outro lado.
(cont. em breve)
enviada por Nicinha
10/03/2008 20:06
KURT COBAIN - A HISTÓRIA DE UM MITO
A vida de Kurt Cobain, o líder do grupo Nirvana, é algo que vale à pena ser conhecido.
Aqui, consideraremos alguns aspectos de seu comportamento, detalhes e momentos de sua rápida, mas fulgurante existência.....
Kurt, assim como Jim Morrison, escreveu com letras de fogo e tinta de sangue a imortalidade de seu nome entre as lendas do Rock!.....
Para quem ainda não conhece ou não pode comprar, essa aqui é a capa do livro "Mais pesado que o Céu", que o escritor Charles Cross escreveu sobre a vida do líder do Nirvana, Kurt Cobain
A gente vai comentar um pouco sobre o livro. Devagar e sempre como é minha marca tartaruga-ninja-adormecida.....mas chegaremos lá....prometo!....
Capítulo I
Aberdeen, Washington
Fevereiro de 1967 - Dezembro de 1973
"Ele dá a conhecer seus desejos gritando alto no começo,
depois chorando, se a primeira técnica não funcionar."
(Trecho de um relato feito pela tia de Kurt Cobain, quando ele tinha quinze meses de vida)
enviada por Nicinha
09/03/2008 22:52
Aqui dois links pra moçada que gosta do Jim e do Kurt.
São flogs muito legais!
Acessem!!!
www.megaflog.com.br/morrison
www.megaflog.com.br/kurtcob
enviada por Nicinha
02/10/2006 02:13
Entrevistas de Jim Morrison
Entrevista a John Carpenter
do Los Angeles Free Press(1968)
John Carpenter - De onde saiu aquela capa do Strange Days?
Jim Morrison - Detestei a capa de nosso primeiro LP. Então falei: "Não quero sair na capa do próximo. Qual o problema? Coloquem nela uma galinha ou qualquer outra coisa, um dente de leão ou um desenho qualquer". Quando o título - Strange Days - surgiu, todos começaram a comentar, que por causa desses dias estranhos é que tínhamos chegado onde estávamos. Essa era a verdade. Originalmente, eu queria todo o grupo cercado por trinta cães, mas a idéia foi impraticável. Todos perguntaram: "Por que quer os cães?". Respondi que se tratava de uma metáfora, pois a palavra cão(dog) é o reverso da de Deus(God). ( Risos). Finalmente, levamos o problema ao diretor de arte e ao fotógrafo. Precisávamos de monstros autênticos, e os encontramos num bizarro parque de diversões, numa performance de um show burlesco. Parecia algo europeu, e bem melhor que nossas caras de merda!
John Carpenter - Vocês tocam apenas nos fins de semana?
Jim Morrison - Não, trabalhamos direto. Muito mais do que todos pensam. Após o Bowl vamos ao Texas, Vancouver, Seattle, Costa Leste, Montreal etc...Após as três primeiras semanas de agosto, que passaremos filmando, iremos para a Europa. É um trabalho e tanto!
John Carpenter - Você continua lendo muito?
Jim Morrison - Não como antes. Deixei de ser também um escritor prolífico. Quando, algum tempo atrás, morava numa construção abandonada, dormindo no forro, joguei fora meu caderno de anotações que tinha desde os tempos da High School e muitos versos se foram. A maior parte deles era sobre a Lua, mas não me recordo bem. Tento colocar as palavras de forma que segurem a melodia. A maior parte das pessoas não sabe, mas componho as melodias muito depois, e as palavras que não se encaixam são abandonadas(digo: "Por que não consegui?") e se vão, permanecendo delas apenas uma vaga idéia. Nessa época, quando escutava uma melodia, era como uma performance total, única. A canção fundia-se ao público, aos músicos e ao cantor. Tudo. Era como a previsão do futuro. Estava tudo lá.
Entrevista a Mike Grant - "Rave" - (1968)
Mike Grant - O que achou do público londrino do Roundhouse?
Jim - Um dos melhores que encontramos. Nos estimularam e fomos até as raízes. Tudo que posso dizer é isso: foram fantásticos! Gostei mais desse concerto que dos outros que há anos fazemos.
Mike - Qual é a importância do sexo em suas performances nos concertos?
Jim - O sexo é apenas uma parte de minha performance. Existem milhares de outros fatores. É decerto importante, mas não creio que seja a coisa principal. Evidentemente é uma das bases naturais da música. Não pode ser separado.
Mike - Qual a importância da política em suas letras?
Jim - Não creio que a política seja um tema de peso em minhas canções. Apenas aparece prioritariamente em algumas delas, mas como um tema de menor destaque. Política é a interação entre as pessoas e, realmente, não podemos separá-la de nada.
Mike - Recebeu alguma influência dos pioneiros do rock: Little Richard, Jerry Lee Lewis, Fats Domino, Gene Vincent e Elvis Presley?
Jim - Recebi evidentemente uma influência, porque os ouvia o tempo todo na minha infância.
Mike - Existe alguma coisa em comum entre você e Mick Jagger?
Jim - Geralmente, as comparações são sempre lamentáveis.( Após longa pausa e com os olhos fechados, comentou) O que você acha?
Mike - Mas não pode mesmo me dizer?
Jim - Esta é uma questão retórica que merece uma resposta retórica. Prefiro que me pergunte se observei bem minha palma esquerda.
Mike - Os admiradores dos Doors costumam procurá-lo para tentar receber alguma orientação de vida?
Jim - Recebo cartas realmente incríveis. Mas com elas aprendo mais como viver do que poderia tentar ensinar. Nossos fãs são sensíveis e muito inteligentes.
Mike - Pode me descrever suas performances no palco? Seriam elas inspiradas por uma força demoníaca?
Jim - Prefiro a expressão "força primal". No início de minha carreira, eu era menos teatral, menos artificial. Mas agora as platéias cresceram muito, e no momento em que me torno um minúsculo ponto no centro de um estádio, tenho de maquiar para suprir esta falta de intimidade com o público.
enviada por Nicinha
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