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19/08/2008 21:30
Jim Morrison - L'état Limite du Héros
Uma das minhas maiores qualidades é a pretensão.
Realmente, acho que posso tudo e que consigo tudo. É uma forma megalomaníaca de viver e que me traz grande alegria. Se por acaso não faço ou não obtenho algo, é porque não desejei de verdade aquilo.
E assim vou me esmerando...e acreditando...e vivendo feliz...
Entre minhas crenças de possibilidades infinitas está essa: traduzir um estudo meio psicanalítico, meio social, sobre o grande vocalista do grupo "Doors" - Jim Morrison, do francês para o português. "Tarefa ingrata", dirão. De forma alguma! Não será pior do que a outra versão que já faço, de um livro em inglês, deste meu querido ídolo!
Como podem notar, sou mesmo irracional...
Bem, chega de elogios e vamos botar mãos à obra!
Não só espero, como exijo, que gostem deste trabalho.
Desculpem a imodéstia...mas, Jim Morrison sempre quis ao seu redor um séquito de fãs inteligentes...de minha parte, jamais teria a coragem de contrariá-lo.
(Posso começar amanhã?!
Tô com sono agora...)
Beijinhos
Bem, vamos lá então...
Jim Morrison
A Condição Limite do Herói
Autora: Didier Lauru
Introdução
Homem apaixonado pelo absoluto e pela liberdade, o poeta James Douglas Morrison não encontrou outro sentido na vida, senão aquele ligado à superação de todos os limites, chegando a queimar as próprias asas na aproximação da morte.
O poeta revela uma primeira verdade, uma força que habita em cada um de nós, que designa o âmago de nosso desejo. Essa verdade que procuramos, a maneira mais contundente, mais viva, a adolescência.
Morrison lhes devolveu as dúvidas que eles tinham sobre si mesmos e sobre as fronteiras da loucura.
Ele respondeu à sua maneira à questão adolescente: eu sou louco?
Morrison é, sem dúvida, a criança de seu século, que como artista e poeta, devolveu à sua maneira brilhante e poética a inquietação presente na civilização atual.
Por que este eterno adolescente revoltado atrai ainda a juventude?
Precisamente porque ele não envelhece e permanece para sempre jovem em seu psiquismo e em seu discurso. Ele mostra os sonhos mais loucos que transbordam dos medos insensatos.
James Douglas Morrison extraiu uma matéria-prima de suas
angústias e a partir dela elaborou um objeto cultural inteligente, sensível e poético.
Essa idéia teve a capacidade de vibrar no mesmo nível das preocupações do jovem contemporâneo, a ponto de percorrer várias gerações e ainda persistir nos dias atuais, superando todos os modismos e sucessos repentinos e consumistas deste novo milênio.
Em que o discurso psicanalítico vem interferir neste processo cultural?
Como uma leitura psicanalítica de uma obra ou de um personagem pode levar à sua compreensão? Freud já respondeu a esta questão:"A psicanálise reconhece ser digno de estudo tudo aquilo que diz respeito aos elaborados modelos humanos, e pensa que ninguém deva sentir-se envergonhado por saber estar submisso a leis, que regem, com o mesmo rigor, a doença e a normalidade."
Entretanto, a visão não se aplica a uma grade de leituras, mas em tentar uma correlação entre os processos apresentados nas curas analíticas e as manifestações descobertas em uma obra, autorizando um enriquecimento recíproco.
A investigação psicanalítica conjuga-se apenas na singularidade da relação que ocorre na cura ou que se apresenta através do estudo de uma figura carismática.
No caso de James Douglas Morrison, ela se apresenta também a partir de sua ascensão ao "status" de ídolo e, a partir deste, à figura do herói.
Em uma primeira leitura, a importância da impulsão, aquela que se refere à revolta contra a autoridade paterna, leva a atribuir a Morrison a categoria de um eterno adolescente. Contudo, a partir de declarações de seus companheiros, da leitura de inúmeras entrevistas que ele concedeu, e sobretudo do material bruto que representa o texto de suas poesias, uma segunda hipótese se faz hoje, situando Morrison numa categoria particular, indicativa de um estado limite.
Entretanto, não se discute a confabulação de um diagnóstico que seja adequado a ele, mas de se tentar mostrar uma outra visão, na qual se imagina a sua figura de herói e a da persistência do mito.
Em sua vida, ele foi um ídolo da juventude, cuja popularidade o igualou aos maiores grupos musicais dessa época.
As circunstâncias de sua morte, sua personalidade, as mensagens veiculadas em seu discurso como em sua obra escrita, fizeram dele um herói mítico.
Mas o mito não pode existir e só consegue consistência quando está inscrito e enraizado na cultura de seu tempo.
O estado limite, as rupturas, as passagens à ação, o desejo pelos excessos e pelos tóxicos, refletem bem o estado da subjetividade contemporânea.
Este estado limite do simbólico e da ligação delimitada pelo social caracterizam nossas sociedades.
Era, sem dúvida, isso que Morrison desejava tornar, de tal forma, vivo, que lhe seria necessária a transgressão para continuar a existir. Tal como aqueles que apreciavam, e que ainda apreciam, saber captar esta mensagem de beleza, de esperança na vida e no amor, de desespero frente à maldade do mundo e da infinita distância entre os seres.
O poeta, assim como o artista, não está sempre sozinho.
Em cada um, ele coloca a consciência de sua verdade.
Ele exprime, através de sua criatividade, uma linguagem universal e, por possuí-la, carrega em si os significados dos outros.
Ele, que desejava estar no limiar da percepção, termina subjetivamente enfermo em seus próprios limites, que ele tentou, desesperadamente, deixar no sensível e entre os vivos.
A JUVENTUDE DO ÍDOLO
"É o primeiro ato da tragédia que parece ter sido escrito desde as origens."
O Nascimento do Herói
Um herói, seja ele real ou imaginário, deve ter pais verdadeiros antes de os renegar ou trocar por outros.
Os pais reais de James Douglas Morrison, aliás, Jim Morrison, são especiais, e suas personalidades tiveram uma influência notável sobre seu destino.
James é o filho mais velho entre três crianças, das quais uma menina, Ann, e um menino, Andy.
Sua mãe o educa sozinha a maior parte do tempo, pois seu pai, oficial da marinha, encontra-se constantemente ausente, além de ser também o mais jovem almirante da frota americana. Ele é descrito por muitos como possuidor de uma grande rigidez e também pouco comunicativo. Ele nunca compreende seu filho, que revela, logo cedo, seu gosto pelo estranho e pelo diferente.
Alguns relatos mostram que a frieza, a ausência de afetividade ou de demonstrações emotivas eram características, não somente de seus pais, mas também de seus avós maternos, que eram sempre vigilantes. Nada de fumo, nenhuma gota de álcool é autorizada na casa de seus avós, de acordo com a mais estrita tradição puritana protestante. Seus pais não deixavam seus filhos conversar à mesa nem se mexer.
James é, desde cedo, uma criança estranha, distante, fechada e tímida.
Uma das lembranças de infância merece atenção especial à medida que Morrison a evoca repetidas vezes.
Nós veremos qual característica lhe atribuir: a de lembrança real, projetada ou reconstruída?
É sempre ela que nosso herói revive em inúmeras ocasiões.
As Almas dos Índios Mortos
"Meus pais, meus avós e eu atravessamos o deserto em um carro durante a madrugada.
Um caminhão cheio de índios tinha batido em um ônibus. Havia índios feridos por toda a estrada, sangrando até à morte. Eu era apenas uma criança e fui obrigado a permanecer no carro, enquanto meus avós foram ver o que tinha acontecido.
Tudo o que eu vi era aquela estranha pintura vermelha e pessoas estendidas, mas eu sabia que havia acontecido alguma coisa, pois eu sentia a vibração.
É a primeira vez que eu experimentei o medo.
Eu penso realmente, que uma ou duas almas desses índios mortos giraram ao redor de mim, em pânico, e se refugiaram dentro de mim mesmo.
Eu era como uma esponja, pronto a tudo absorver."
Este é o texto original.
Antes de arriscar uma possível interpretação, é necessário dar uma pausa para compreender como essa lembrança influiu sobre o destino de nosso herói.
Ele escreverá, em "Peace Frogs", uma canção cujas palavras se referem a essa lembrança.
"Índios espalhados pela estrada durante a madrugada
Fantasmas sangrentos encombrem o espírito da jovem criança, frágil concha."
Encontra-se, aqui, a representação que ele faz de si mesmo e de sua extrema fragilidade infantil.
Morrison gravou uma outra versão desses poemas, sem música, sozinho no estúdio.
Após sua morte, os Doors quiseram musicar esses textos gravados.
O texto de Morrison dá uma outra versão a esta cena e fornece elementos para a interpretação.
"Era a primeira vez
que eu sentia medo, eu devia ser uma criança de quatro anos que,
como uma flor, seu rosto flutuava no ar, amigo.
A sensação que agora eu tenho, olhando para trás,
é que as almas dos fantasmas desses índios
mortos...talvez um ou dois deles...estavam espalhados, errantes, e
acabaram penetrando em meu espírito.
E eles estão aí até hoje.
Os índios espalhados na madrugada pela estrada sangrenta
Fantasma se insinuando no espírito da jovem criança, frágil concha.
Índio, Índio, por que você morreu?
O índio diz - por absolutamente nada."
Nesta versão, são os índios que, curiosamente, nada dizem a seu respeito. Mas ainda é visível a constância da fragilidade e da permeabilidade do espírito da jovem criança.
As crenças que ele encontra, por ocasião deste acidente, sobre a vida e a morte, permanecerão como primeiro plano de suas preocupações ao longo de toda sua existência.
A lembrança e o Esquecimento
Esse acidente, de fato, ocorreu.
A lembrança é obscura, pois ele não viu muita coisa, como o próprio poema mostra.Inclusive os adultos, pais e avós de Jim, refugiam-se no mais absoluto silêncio.
Quais foram os comentários desses adultos sobre o que eles viram de verdade, de realmente traumatizante?
Em uma de suas biografias("Jim Morrison - O Rei Lagarto"- J.Hopkins"), ele relatou que seu pai teria dito pouco depois: "Foi um sonho. Tudo aquilo realmente não aconteceu. Não é verdadeiro. Você teve um pesadelo, foi isso".
Entretanto, é provável que os adultos tenham falado de suas amarguras, mas através do prisma de seu puritanismo, pois a emoção não devia ser confessada.
A frase de seu pai viria apoiar a hipótese de um esquecimento da realidade, que ele teria proposto à criança no intuito de acalmar sua aflição.
É precisamente este o ponto crucial, essa carência de palavras que teriam se cristalizado em vazio, esta ausência em dizer, que impede de se fazer a correlação entre as emoções sentidas e a realidade. O amor de Jim pela poesia e pela linguagem encontra aqui uma de suas principais causas e fixação.
Assim, o lugar é deixado livre para a imaginação.
Morrison irá desenvolvê-la de forma privilegiada, talvez excessivamente, mas é ela que lhe permitirá exprimir sua criatividade. Como nessa interpretação dos povos indígenas e na possessão de seu espírito por eles.
A metáfora da esponja, disposta a tudo absorver, está bem vinculada à da criança vazia de informações para narrar os acontecimentos, que os adultos ao redor recusam-se em comentar. É também uma forma de identificação que se refere à ausência de palavras dos adultos, que estão impossibilitados de traduzir suas próprias emoções.
Devido a tudo isso, um sentimento de insegurança desabrocha na criança. Uma angústia que não tem limite, pois a palavra do adulto não tem o valor da segurança. Assim, a criança está entregue a si mesma na vivência de sua ansiedade e deverá encontrar, por si só, os reparos que podem cercar o campo da realidade e limitar a angústia.
Mas, no centro do perigo, não se cerceia mais a angústia, mas sim,o possível ódio pelo outro, por aquele ou por aqueles que ,necessariamente, não puderam segurar essa angústia.
"Você é meu filho, permaneça assim"
Em um poema, Morrison descreve uma cena que parece inventada, mas que nos esclarece sobre seus "fantasmas".
Ele se vale de um longo poema intitulado - "Anatomia do Rock" - publicado em 1970 na revista americana "Jazz e Pop".
"Quando eu ainda era um menininho de cinco anos
Um dia, indo me deitar,
Eu escutei mamãe e papai discutirem
Ela dizia:
É preciso segurar esse rapaz, ele irá muito longe.
Ele se tornará um selvagem, deve-se pará-lo.
Eu estava me deitando, eu escutei isso e eu me senti mal.
Você compreende, todos vocês, isso me fez mal.
Mamãe não gostava do caminho que eu trilhava
A velha senhora, ela não aceitava aquilo
Mas meu pai era marinheiro, ele voltou o rosto para mim e disse:
Você é mesmo meu filho, permaneça assim.
Ame, ame, ame, ame, meu pequeno, esta noite".
Temos ,assim, esta lembrança antiga, equivalendo a uma cena primitiva, onde seus pais conversam sobre ele. Sua mãe evoca suas preocupações e seu pai a tranquiliza.
É uma das raras ocasiões na qual Morrison apresenta a figura de seu pai de maneira positiva. Diante da incompreensão de uma mãe preocupada com o jeito estranho de seu filho, ele é apoiado por seu pai, que se identifica com ele.
O "fantasma" tem, assim, seu lugar, que nós podemos situar durante esta época, pois aqui ele se mostra, nesta lembrança reconstruída e poética dos sentimentos positivos com relação a seu pai.
Este é um fato isolado em sua obra, pois em seguida e ao longo de toda sua vida, ele irá nutrir por seu pai um ódio constante.
Sua mãe é pouco presente em seus escritos ou em suas declarações, exceto na canção edipiana, onde ele deseja fazer amor com ela e matar seu pai("The End").
Morrison evoca, constantemente, as relações de incompreensão mútua com seu pai. Como sua trajetória e seus escritos atestam, ele sente uma necessidade irresistível de se opor a seu pai e a tudo que represente a autoridade.
Ele declarará, logo cedo, sobre perguntas que lhe são feitas a respeito de seus pais, que ele é órfão. Mas isto também faz parte do mito em construção.
Um herói não pode ter pais verdadeiros. Eles devem ser ou extraordinários, ou ausentes ou mortos.
Assim, James Morrison é quem faz a escolha desse destino.
Teria ele outra opção?
O Gosto pelo Perigo
Morrison evoca, repetidas vezes, uma outra lembrança da infância um pouco mais tardia.
É em 1953, em Los Angeles, para onde seus pais se mudaram.
Ele tem dez anos e já aprecia o perigo.
" Entrei num trenó com meu irmão e minha irmã - ele escreve - O trenó despenca e ganha rapidamente velocidade. Ele vem descontrolado. Choca-se, estraçalhando-se, contra a parede de uma cabana. Andy e Ann querem saltar com o trenó em movimento. Eu os seguro por trás. Andy grita. O trenó pára sozinho sobre um declive. Eu acabo de descobrir o prazer supremo de dominar o pânico."
A partir desta lembrança, ele nos demonstra um desejo de ir ao fundo do medo e de provar os limites da realidade na intimidade do perigo.
Ele se colocará, ao longo de toda sua vida, naquilo que é denominado hoje como "conduta de risco".
Esse apego pelo perigo, às vezes até insensível, foi a faculdade que o fez experimentar de novo a realidade da vida para aproximá-lo da morte. Como se a vida não fosse suficiente para lhe dar o sentimento de sua própria existência. Desta forma, estando levemente embriagado, ele até simula uma corrida de carro, no meio de Sunset Boulevard, principal artéria de Los Angeles.
Este é um dos inúmeros exemplos de sua procura pelos riscos e de sua vontade de desafiar a morte através de condutas extremadas.
O Adolescente Rebelde
O Colégio é para ele uma primeira oportunidade de mostrar sua diferença e de se abrir a outras culturas mais próximas de suas aspirações.
"As pessoas são estranhas, quando se é um estranho
Os rostos parecem disformes, quando se está só".
O rapaz deve se adaptar às frequentes mudanças ligadas à atividade de seu pai e encarando o encontro com os outros sempre numa tentativa de se ajustar.
Mas, juntamente com esta realidade, existe também a dificuldade de se apreender o enigma do que o outro é.
Ele reproduz nesta canção:
"Quando se é estranho, rostos surgem na chuva,
Ninguém chama seu nome,
Quando se é estranho".
É o encontro com o outro que devolve a estranheza ou, como Freud a formula, "a inquietante estranheza".
É a parte do desconhecido que cada um percebe diante da realidade que se reflete no desconhecido que habita no fundo de cada um.
Morrison é, sem dúvida, bastante perceptivo com aquilo que emana dele mesmo, do incomum e da estranheza de suas próprias sensações e pensamentos.
Ele evoca a problemática do desconhecido, no qual ninguém chama por seu nome.
A nominação ocupa nele um lugar central em toda sua trajetória, pessoal e de autor.
Apaixonado pela leitura, ele vai se dedicar inteiramente a bastante quantidade de obras de literatura, poesia e filosofia. Sem contar com o esoterismo, que o atrai, e ao qual ele se referirá seguidamente, em particular o "xamanismo" - ele se autoproclamará xamã repetidas vezes.
Ele é diferente dos outros adolescentes de sua idade.
Ele mostra sua originalidade tanto no seu relacionamento com os outros como nas questões disciplinares.
Ele é, em suma, um adolescente original e culto que se envolverá muito cedo com questões reivindicatórias muito radicais.
É sobre esta base de anti-autoritarismo e de poesia que James tenta se construir.
Desde esta época, a partir dos quatorze anos, ele começa a escrever abundantemente. Ele ama as palavras e as venera. Ele aprimora sua escrita tentando dominá-la, canalizar uma energia transbordante e uma necessidade imensa de ser amado. Ele tenta, ainda, traduzir aquilo pelo qual atravessa e, ao mesmo tempo, diminuir a distância que o separa das palavras e das coisas.
Ele passa por riscos, às vezes, imprudentes. Caminha ao longo das margens das rodovias. Ele é também especialista em gracejos, em crises de originalidade, que concorrem para marginalizá-lo. Conta a um de seus professores estupefatos, que possui um tumor cerebral. E, ainda se não bastasse, ele se opõe a todos os outros. Ele permanece à parte, voluntariamente se coloca distante dos outros, como um ser que não pode existir entre eles. Assume o estigma de "estranho" que se deu a si mesmo, como em "Pessoas são estranhas".
Em uma das melhores biografias - "Daqui ninguém sai vivo" - J.Hopkins e D.Sugerman, bastante documentada, tomamos conhecimento de que ele tem um QI muito elevado(149)e apresenta comportamentos ditos "bizarros" diante de seus professores e conhecidos, sem contar o interesse muito grande que possuía pelas garotas. Ele tenta conquistá-las, declamando-lhes poesias, fazendo gentilezas e depois as despreza.
Apesar do caráter bastante atípico desses comportamentos, é possível reconhecer neles o traço de uma crise adolescente.
Tomando-se o significado etimológico da palavra crise, percebe-se que ela é definida de um modo bastante pejorativo para descrever certo período da vida.
A palavra "crise" deriva do latim "crisis" como sendo "fase decisiva de uma doença". A palavra em latim tem uma correspondente em grego - "Krisis" - que significa "decisão, julgamento".
Crise é,pois, originalmente um termo médico que, por extensão, é aplicável ao domínio psicológico, no sentido de presença de manifestações violentas.
Ele será empregado especificamente em dois sentidos: o individual, relacionado à crise da adolescência; e o coletivo, em relação à crise econômica.
É importante notar que nestas duas concepções da palavra crise, o sentido que se dá a uma das expressões não condiz com o significado da outra.
Em relação à história particular de Morrison, a crise da adolescência está, efetivamente, indissociada do contexto da crise econômica, social e cultural do fim dos anos 60.
A crise da adolescência é uma terminologia que não caracteriza adequadamente o conjunto das problemáticas psicopatológicas que se apresentam na adolescência. É mais usual falar em crises no plural, para tentar melhor compreender a evolução gradativa e constante desse processo de maturidade e evolução que é a adolescência.
Os estudos secundários de Morrison na Virgínia(High School) são coroados por um diploma.
Em seguida, de acordo com seu interesse pela literatura, história da arte, poesia e também pela filosofia, James vai frequentar durante três anos a Universidade do Estado da Flórida.
Depois ocorre a ruptura: ele deixa seus pais definitivamente, contra a vontade deles. Não os verá nunca mais, recusando-se às inúmeras tentativas de reencontro sugeridas por eles.
De acordo com seu maior desejo, ele vai para a Universidade de Los Angeles(UCLA) em 1964, aos 21 anos, a fim de estudar cinema.
Ele cria filmes tão pretensiosos quanto estranhos, realmente cansativos. Mas lá, a distância que sente em relação aos outros ainda aumenta.
Ele se recusa a aceitar as críticas que lhe são dirigidas.
É obsecado por um ideal e intransigente com todas as opiniões contrárias à sua.
Não quer mais discutir assuntos banais ou com pessoas que não concordem com ele.
Durante seus anos de estudo, James continua a se distinguir por sua cultura bastante européia, voltada para a França.
Com efeito, ele nutre uma admiração ilimitada por Baudelaire, Rimbaud, William Blake, Shelley e os românticos, e também por outros autores como Nietzche, Artaud, e os precursores da geração beat: Ginsberg, Kerouac, etc...
Desta época, alguns de seus poemas escaparam da destruição que ele mesmo impôs à sua obra. As poesias sobreviventes compõem uma coleção intitulada "Senhores e Novas Criaturas".
De acordo com seu desejo, este livro é editado sob a assinatura de James Douglas Morrison, em 1969. É a primeira vez que ele assina e publica sob seu completo patrocínio.
A produção poética dos primeiros anos de sua adolescência não é assim tão forte, tão poderosa, que não pudesse esperar um pouco.
Sem dúvida, o próprio James iria querer em sua juventude atingir rapidamente um nível sublime de criação. Sua única ambição é o de ser poeta e de se realizar na escrita. Nós veremos mais tarde que, apesar do fato de ter se tornado um grande cantor, vai permanecer nele a frustração de não poder ser um poeta reconhecido.
Bastante tempo depois, ele relembra esses anos passados:
"Eu não havia jamais cantado. Eu não tinha mesmo jamais sonhado com isso. Eu queria ser escritor ou sociólogo, talvez escrever peças."
Seu desejo de escrever sempre permanece vivo, realizando-se no cinema, na canção ou na poesia.
Mas a metamorfose do letrista e cantor de sucesso em poeta será dolorosa e terá um preço.
Do Poeta ao Cantor
"Se minha poesia tem um fim, é o de libertar as pessoas de suas viseiras, de multiplicar seus sentidos"
James Douglas Morrison
Como um adolescente culto, original no seu mais amplo sentido, apaixonado por literatura, poesia, chegou a vocalista de um dos mais conhecidos grupos de rock do mundo, cuja notoriedade resiste à passagem do tempo?
Ao longo de seus estudos na Universidade de Los Angeles, a transição se efetua.
Ele escolheu essa universidade para estudar cinema.
Ele depende tão somente de si mesmo; mora no sotão de um imóvel ou em um pequeno quarto. Separa-se completamente de seus pais e não irá mais vê-los tão cedo.
Descobre diferentes drogas, principalmente a maconha e o LSD. Através delas, descobre os novos campos da consciência e das percepções inéditas.
Como era comum nesta época, ele usava essas drogas numa tentativa de aprofundar sua criação artística.
A Criação dos Doors
Um encontro vai modificar o destino de Jim Morrison.
Um estudante, Ray Manzareck, apaixonado por música e literatura se interessa por ele.
James recita-lhe suas poesias na praia de Venice.
Este instante é o início mágico de uma utopia sem precedentes.
Eles comentam montar um grupo de rock, de revolucionar o mundo e de ganhar muitos dólares.
Este sonho iria levar à criação de um dos grupos mais originais e mais poderosos de sua geração.
Quanto ao nome do grupo musical, que eles fundaram com dois outros músicos, John Desmond na bateria e Robert Krieger na guitarra, será decidido através da influência direta de Jim Morrison.
"Doors" é escolhido a partir de um poema de William Blake, do qual uma frase está contida no livro de Aldous Huxley "As Portas da Percepção".
Neste livro, o autor relata com detalhes muito precisos as deformações sensoriais e estéticas que a mescalina, uma poderosa substância alucinógena, tirada de cogumelos, acarreta e cuja síntese estava em alta naquela época.
Esse é um dos textos que melhor descreve os efeitos do uso de substâncias alucinógenas e que só poderia suscitar o interesse de Morrison e dos jovens de sua geração.
Foi retirada desse livro a seguinte frase de William Blake:
"Se as portas da percepção fossem abertas, todas as coisas apareceriam ao homem tais como são, infinitas...."
Jim Morrison se reconhece plenamente neste extrato de poema, ao qual dá sua interpretação, identificando-se com a porta:
"Há o conhecido e o desconhecido. Entre os dois há a porta e é ela que eu quero ser"
Aquele extrato de poema é apenas um enxerto solitário no livro de Aldous Huxley e é sem dúvida necessário que Morrison mergulhe nos livros de poesia para saborear a pureza original do texto de William Blake.
"Se as portas da percepção fossem abertas todas as coisas apareceriam ao homem tais como são: infinitas. Pois o homem está doente, à medida que vê todas as coisas através das estreitas fendas de sua caverna"
O homem que está enfermo em sua caverna, não é aquele que se contenta em permanecer no seu próprio espaço e em não explorar suas capacidades psiquícas, sensoriais ou relacionais?
Mas o campo das possibilidades reserva a cada um senão o infinito.
É, sem dúvida, o equívoco e a utopia de Morrison: acreditar que todos possam tudo.
Entretanto, os psicanalistas, apoiados em sua experiência cotidiana, observam que cada indivíduo se apresenta numa estrutura particular e é determinado por sua história pessoal e da sua família que lhe emprestam um certo número de significados. A pessoa se apropria inconscientemente desses significados que fazem funcionar sua estrutura interna.
Na poesia se discute a questão do registro perceptivo que manteria uma presença, assim como se fosse uma tela, que nos impediria de perceber a dimensão real de nosso mundo circundante.
Não é o imaginário que está aqui nomeado?
O limiar do imaginário é a porta, com uma visão pejorativa desta interface entre o homem e o real, e que seria nefasta, pois seria preciso ir para o outro lado para se perceber, enfim, o real.
É portanto a dimensão imaginária que dá ao homem sua humanidade e sua natureza desejosa; a condição que o impede de desembaraçar-se de um imaginário muito inquieto ou que impede seu funcionamento psíquico harmonioso.
Então, instala-se um período de criatividade.
Jim Morrison jamais estudou, ou mesmo praticou, a música ou o canto.
Ele se põe a trabalhar com o grupo, levando-o a sério.
Tudo isso acaba resultando em uma base musical, que se caracteriza por uma originalidade temática, sonora e, claro, linguística.
Com efeito, quase todas as letras dos três primeiros álbuns são creditadas a Jim Morrison. As criações musicais são coletivas. Mas ninguém assina em seu próprio nome a música ou as letras, e isso durará até que o grupo atinja o seu auge e que cada um se ponha a assinar suas próprias composições.
É assim que Jim Morrison se afasta de seu próprio nome anterior, que estava ligado ao nome do grupo escrito no plural: Doors.
Esse anonimato relativo lhe permite dedicar-se à literatura.
Não existindo artisticamente sob seu próprio nome, sem dúvida não consegue ir além de seus próprios limites.
Quando, mais tarde, ele recupera sua identidade, tanto ao nível das palavras, das canções, como da poesia, ele será vitimado por uma grande destruição e os efeitos do "desejo de morte" serão sentidos com força.
Esses anos são magníficos, a criação intensa, e existe presente uma grande energia construtiva.
Ao fim de um ano de preparações e repetições, o grupo começa a adquirir uma certa notoriedade.
Depois de ter sido lançado, ter suportado algumas rejeições, alguns tormentos inerentes ao meio artístico, o sucesso veio relativamente rápido.
O magnetismo do grupo está ligado a uma música original, mas sobretudo ao carisma e à presença estranha e envolvente de Morrison.
Seus excessos em cena, suas provocações, suas loucuras, suas extravagâncias verbais e comportamentais concorreram para lhe dar uma reputação mordaz e sedutora.
O primeiro disco dos Doors será facilmente um sucesso: muito rapidamente receberão o disco de ouro.
Após as quarenta e cinco turnês realizadas pelo grupo, a marca de um milhão de exemplares vendidos é rapidamente atingida.
O Lado Obscuro

Paralelamente, Morrison escreve poemas que se assemelham, às vezes, a um diário ou a comentários ousados de sua própria vida e de sua experiência singular.
O leitor se tornará, ainda, a testemunha dos fragmentos de sua vida amorosa ou imaginária.
Trata-se de uma intromissão violenta de um olhar exterior que reproduz o olhar do escritor ou poeta sobre si mesmo. Assim, pode-se cumprir a promessa de imortalidade das palavras do poeta.
Sua poesia é, ao mesmo tempo, clara e obscura.
Ele fala da noite ou da obscuridade, mas também da luz ou do dia.
"Você sabe que o dia destrói a noite, a noite divide o dia
Eu quis correr, eu quis me esconder
Rompa para o outro lado,
Rompa para o outro lado....."
Sua escrita é marcada por uma obscuridade que revela nas entrelinhas aquelas palavras que se escondem, se deixando derivar até o último ponto onde o sentido escapa.
Não se pode crer no amor.
Sua concepção de amor é passional por essência e desesperada por necessidade.
Como crer no sofrimento do amor?
Como confiar naquilo que é fonte de agonia?
Em sua correspondência, Heidegger, um famoso filósofo, escreve a seu colega Hannah Arendt:
"Você sabe qual é a mais difícil de todas as coisas que um ser humano pode suportar?"
E ele mesmo responde da seguinte maneira:
"Para todo o resto, há caminhos seguros, parapeitos para se apoiar. Ao passo que o acontecimento do amor, quando alguém diz a outrem - eu te amo - está, na verdade, querendo se apossar da própria identidade da pessoa"
O poeta confirma a opinião do filósofo,ou seja, o ser que quando ama fica sem defesas. Mas o poeta, por seu lado, tem a solução da escrita para resgatar a impossibilidade do amor.
Há dois caminhos que conduzem à vida: um é comum, liso, sem asperezas, regular, direito. O outro é disforme, passa pela morte, e é aquele da transformação mística ou do gênio.
É, sem dúvida, este último que Morrison quis tomar emprestado ao longo de sua vida.
Um outro poeta e dramaturgo que Jim igualmente admirava, Antonin Artaud, que sentiu na carne e no pensamento o começo da loucura, escreveu no seu "Prólogo ao Novo"
"Estas são as coisas crepusculares
Visões de fim da noite
Ó Verdade, você as clareia
Somente de uma madrugada que ilumina"
É provável que Morrison tenha lido este poema e se sentido em ressonância com esta visão crepuscular e transtornada da vida.
Ele tentou, influenciado pela leitura dos surrealistas, lançar-se à escrita mediúnica, sem resultados convincentes.
Para um vocalista de rock, que é também um autor e escritor, é necessário colocar a questão: porque optar pela música ao invés da poesia?
Quando um jornalista lhe perguntou se ele via alguma diferença entre a escrita de um poema e a escrita de um texto para uma canção, ele respondeu:
"Para mim, a canção vem primeiro, o som, o ritmo; então, eu escrevo rapidamente para poder permanecer fiel à impressão musical, até que música e palavras jorrem simultaneamente. Uma canção é algo mais primitivo. Geralmente, trata-se de um ritmo, de um compasso elementar, enquanto que o poema, por sua maior complexidade, pode ir aonde ele quiser."
Notamos que Jim é um autor extremamente prolixo.
Ele relembrou, nessa entrevista de 1969, as canções que havia escrito há mais de três anos. E também foi ele mesmo quem destruiu grande parte de seus escritos, ao perceber que não se atrelavam mais à sua visão de mundo.
Progressivamente, a fonte de sua inspiração foi secando, por diversas razões que detalharemos. Mas, por enquanto, é o poeta que fala, o aventureiro que explora os limites, as portas, o fim.....enfim, o outro lado.
(cont. em breve)
enviada por Nicinha
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