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22/08/2008 21:27
Parte II - A Condição Limite do Herói
Bem, pessoal, está mesmo impossível para mim postar logo abaixo do tópico desta tradução, por isso resolvi abrir este outro post que, na verdade, é a continuação daquele que está logo abaixo.
Sei lá o que anda acontecendo......
Acredito que não seja obra do Jim....tenho certeza que ele iria gostar que vocês conhecessem esse livro.
A Poesia e o Limite
"Eu chamo poesia aquilo que é o avesso do tempo
Essas trevas que se abrem aos olhos esbugalhados
Esse domínio das paixões onde me perco......."
Louis Aragon
Em 1968, Morrison arriscou-se em declarar que os livros iriam ser substituídos pelos álbuns de música.
Ele desenvolveu o argumento de que os livros ou os filmes seriam lidos ou vistos apenas uma vez, no máximo duas ou três vezes, ao passo que um álbum musical poderia ser escutado até dezenas de vezes.
Ele modificaria, evidentemente, essa sua opinião.
Alguns anos mais tarde, ele faria poesias como ninguém e seria reconhecido como um astro do Rock e não apenas como um artista qualquer.
Mas, o que ele almejava, era também ser reconhecido como poeta.
Essa é toda a problemática entre aquilo que é passageiro e o que permanecerá até a morte, e que o perturba e obseca.
Ele deseja apenas um lugar, o de poeta, e o reconhecimento de sua arte.
A Poesia e o Nome Próprio
Os escritos de Jim Morrison compõem e são as letras das canções dos Doors, mas ele buscava ardentemente, através de sua inspiração, se ver como poeta e ser reconhecido como tal.
Num primeiro momento, ele desejou ser editado como poeta de forma dissociada. De um lado, o astro de Rock famoso; de outro, o poeta maldito, pouco importando que fosse conhecido.
Ele quer ser poeta ao lado de Rimbaud, Baudelaire e de todos aqueles com os quais se identifica fortemente.
poeta Rimbaud
Em 1969, ele quer publicar seus poemas a todo custo e com uma exigência: nenhuma foto, nenhuma referência sequer ao fato de ser um astro do Rock.
Sua coletânea de poesias se intitula: "Os Senhores e as novas Criaturas". A obra é editada em 1969 e na capa do livro é escrito o nome: James Douglas Morrison.
Um testemunho de um amigo mostra a carga emocional e o peso simbólico dessa publicação:
"Quando o livro foi publicado e os primeiros exemplares chegaram pelo correio a Los Angeles, eu encontrei Jim em seu quarto, chorando. Ele estava sentado, com o livro entre as mãos, e dizia: "- Esta é a primeira vez que eu não me sinto enganado." Jim repetiu isso uma ou duas vezes, e eu creio que ele queria dizer com isso, que era a primeira vez que ele se sentia verdadeiro consigo mesmo."
Essa passagem nos mostra a difícil coexistência que havia entre Jim e James Douglas.
O astro do Rock, líder de um grupo conhecido mundialmente, tão popular na época quanto os Beatles ou os Rollings Stones, não aspirava senão a uma coisa: ser reconhecido apenas como um simples poeta.
Esta primeira obra de Jim é, aliás, bastante original e única, assim como as imagens que ele cria. Algumas vezes, seus poemas apresentam-se como uma observação comportada; outras, como um comentário humorístico, uma contemplação, uma balada ou uma narrativa sonhadora, mas sempre com sonoridade nas palavras, com uma melodia nas sílabas e nos fonemas que os deixam atraentes e misteriosos.
A escolha dessas expressões não é guiada por uma racionalidade, mas por uma musicalidade, às vezes distanciada do senso comum, e que mistura o mistério e a estranheza.
Os temas que Jim aborda são atemporais: a arte, a imagem, o belo, o cinema, a morte e a vida, e os sentidos possíveis que poderiam ser encontrados. A noite é onipresente, assim como a obscuridade, que revela os demônios e os medos da infância.
Nesta sua primeira publicação, Morrison fala de seus temores de infância e de seu receio da aniquilação.
"Tudo é vago e vertiginoso.
O medo aumenta e não há mais distinção entre as partes do corpo
Invade o som de vozes ameaçadoras, monstruosas, monôtonas
É o medo e a atração de ser devorado."
Não é impossível pensar que esse medo de ser devorado, o qual os terapeutas encontram regularmente em seus pacientes clínicos, esteja relacionado ao objeto arquétipo materno. Ele está ligado a uma idéia de vazio e perigo relacionado à mãe.
Todos os contos que falam sobre o fato de alguém "ser devorado", remetem a essa crença ancestral da "mordida"(morte certa?) do "devoramento" e aniquilamento.
Da mesma forma, as vozes plenas de ameaças e zombarias a que Jim se refere, poderiam ter a mesma origem.
Sua fábula é um reflexo, sem dúvida indireto mas preciso, das criaturas que povoam sua imaginação.
Em sua obra "Os Senhores e as novas Criaturas", ele fala pouco dessas novas criaturas que, de certa forma, são um enriquecimento e um aprofundamento dos diversos personagens que habitam em si mesmo.
O que levou o jovem James a escrever e por que tão cedo?
Ele mesmo declara ter começado a escrever muito cedo, sem dúvida bem no início de sua adolescência.
Escrever para Existir
Inúmeros psicanalistas debruçam-se sobre o particular fenômeno da escrita na adolescência.
Pesquisam sobre essa necessidade de se expressar através de palavras, da urgência em traduzir em palavras aquilo que é experimentado e sobre o sentido que as mesmas envolvem, às vezes, de forma desconhecida e incomum.
A escrita parece, então, ser a expressão mais fiel daquilo que se sente.
Diante dessa ruptura com a infância e desse imenso salto incomum, cada um, cada jovem, vai tentar se encontrar da melhor forma possível.
Quantos milhares deles não traduzem, na escrita, suas crenças e suas dúvidas, seus questionamentos e seus temores, sua dificuldade em se posicionar no mundo?
Qual adolescente não tentou, durante um tempo, possuir um diário íntimo ou ensaiar uns passos felizes pela poesia?
Cada um de nós guarda em si essas lembranças ambivalentes, a idade das primeiras experiências e seu início.
A escrita tenta demarcar um sentido entre o mundo conhecido da infância e aquele que se revela desconhecido na adolescência.
A escrita é um diálogo simples consigo mesmo, através do qual procura-se exprimir confissões, desalentos, certezas, sonhos e imaginações; havendo, igualmente, espaço para os desejos mais loucos e mais ocultos.
A língua materna, aquela que parece carregar uma conotação de lei e norma, possui uma outra consistência da qual o adolescente parece se afastar.
Assim, parece lógico que ele vá procurar além uma outra liguagem, uma outra forma de expressão, uma nova criação.
O jovem, através da escrita, passa a registrar o "sermão" de seus pais; aquele "sermão coletivo" que está encarnado no momento presente.
Entre essas posições que acabamos de especificar é que se faz uma quebra e se situa o campo das utopias.
Moustafa Saforian, um psicanalista, afirma que "a escrita não passa de um ato de palavra."
Para Morrison, isso é tão verdadeiro, que ele mescla suas palavras à escrita e vice-versa.
Mas, se a escrita permite a um adolescente a possibilidade de "pular" passagens que possam reviver marcas pessoais, Morrison prende-se à escrita como uma necessidade de se apoiar no registro simbólico da mesma, depreciando sua imaginação tão rica.
Pois, como diz Lacan, um famoso psiquiatra:
"É necessário morrer em uma certa relação do imaginário com o objeto, para que se possa renascer para o simbólico."
Podemos entender isso como a elaboração de um caminho necessário da mente para se construir algo.
Mais precisamente, Morrison objetivou essa passagem ao nível simbólico.
Aprender a pensar, aprender a escrever, é aceitar situar-se diante das regras e das leis estáveis.
A escrita se insere no campo do real e nesse se reflete. A poesia, entretanto, brinca com a sonoridade das palavras e com a incongruência que a combinação dessas palavras pode produzir.
Essa aparente falta de sentido existente nas palavras que compõem uma poesia não é sintomática em si mesma, mas indica os pontos de dificuldade de sua inserção ao nível simbólico, produzindo o fim do real.
É nesse sentido que a poesia é universal e eterna.
"Palavras, palavras, palavras......", diria Shakespeare à Hamlet, um eterno adolescente.
Para a personalidade específica do adolescente James Douglas, essas observações acima são pertinentes. Entretanto, devemos dar um passo a mais em direção ao âmago desse personagem e nos apoderarmos de toda sua complexidade.
As leituras muito ecléticas e variadas de James Douglas influenciaram a qualidade de sua escrita e juntamente com suas referências literárias e poéticas interferiram em seu pensamento tanto quanto em sua escrita.
Cedo, Jim se atirou a um determinado tipo de literatura, que tinha a ver com seus questionamentos e aspirações.
Por essa época, ele se alimenta de poesia e vasculhará os mais diferentes gêneros literários, desde os esotéricos até os filosóficos.
Seu espírito curioso e naturalmente investigativo o impulsionou a ler os mais variados textos.
Seu desejo de conhecimento é infinito.
Ele quer explorar mundos novos e, num primeiro momento, efetua essa busca através da leitura e da escrita.
Mais tarde, Jim se colocará a experimentar a própria realidade, numa ação contínua que ele não conseguirá fazer parar, até que suas próprias asas seja queimadas.
Paralelamente às suas leituras, todo o seu ser se orienta numa tensão ansiosa em direção à escrita.
Se, para todo o adolescente, a escrita é um apoio importante e um modo de expressão que reencontra a palavra esquecida, para James é uma necessidade vital numa situação de urgência: a vida está em perigo, e a morte ronda. É como um instinto de sobrevivência que o compele através da escrita.
Certas pessoas possuem uma fragilidade que lhes imprime um movimento incontido em direção à escrita.
Nesse sentido, poderíamos formular a hipótese de que Jim assim agia, como uma forma de conter um impulso de autodestruição que cedo começou a se manifestar nele.
A Ilegalidade do Poema
A maior parte dos escritos de Jim evocam a morte e o fim.
É possível selecionar os diferentes temas que sempre aparecem e os classificar em tópicos.
Conforme o período de sua escrita, alguns temas evoluem e outros permanecem imutáveis: o amor, a morte, a vida, o sexo, a porta, o espelho, como tantos outros de significados semelhantes, envolvem-se numa névoa de incompreensão.
Mas Jim é, também, suficientemente lógico, para que consigamos ver algum significado nessas expressões, apesar de sua gramática quase incongruente, que tenta nos impedir de enxergar o lado particular das palavras em um determinado contexto.
Morrison ama as palavras, gosta de brincar com elas, de lhes proporcionar diferentes sentidos, fazer alusões e metáforas, ser obscuro, utilizar-se de rimas incomuns, usar sonoridades desconexas.
Jim, como um escritor, não perde jamais sua força e seu impulso criativo. As palavras que nascem de suas idéias e de suas mãos parecem carregar um brilho e uma juventude que muito procuramos nos tempos atuais.
Algumas de suas poesias se parecem com HaiKai japoneses, mais por sua essência do que propriamente por sua estrutura, enquanto outras podem ser inseridas no rol das máximas filosóficas de Wittgenstein. Assim, ele escreve no seu "Senhores e as novas Criaturas"
"Todo o jogo contém a idéia de morte"
ou ainda:
"Quando o jogador morre, ocorre o jogo
Quando o sexo morre, ocorre o orgasmo"
Através da ótica de sua poética, Jim ilustra seu universo, suas concepções da vida, da morte em sua ligação mais íntima com o gozo, aquele gozo orgásmico.
Pois o sexo permanece para ele um enigma, sobre o qual ele fala exaustivamente em suas canções ou em seus poemas.
Em sua vida real, Jim teve a reputação de ser um grande possuidor de mulheres por uma só noite, de "groupies" ou de garotas de programa.
Ele frequentava habitualmente bares de garçonetes com seios nus(topless), principalmente o "Phone Booth", que ficava perto de sua casa e do escritório dos Doors em Los Angeles.
Através de sua escrita poética, Morrison procura se dar conta de sua visão de mundo, através de uma subversão radical da palavra, que ele tenta aplicar em sua vida e em sua atividade de cantor de sucesso.
Pierre Legendre escreve em seu "Notas sobre a Ilegalidade do Poema" "..........Por que os direitos poéticos não figuram na lista dos direitos humanos? Essencialmente, porque esses direitos são perigosos; fazem libertar o inconsciente, abrir as comportas, deixar explodir e explorar o desejo. Nada é mais perigoso em uma sociedade que o desejo de uma pessoa livre, o desejo cego, o desejo incontrolável.........."
Pode-se dizer que esse texto tem uma clareza e uma concisão tais, que foi feito sob medida para Morrison?
Entretanto, essa nota sobre a poesia nos leva a algumas outras considerações.
Descobrir seu espaço de liberdade, revelar seus significados inconscientes, somente a escrita poética pode isso pretender.
Os psicanalistas não podem permanecer alheios diante da tamanha beleza que a palavra consegue assumir.
Freud prestou homenagens a muitos de seus escritores contemporâneos, principalmente aos romancistas que conheceu, como Anatole France e Stefan Zweig.
Ele notou nas obras desses escritores, aspectos relacionados à alma humana, descritos de forma bem mais profunda do que aqueles elaborados por teorias psicanalíticas.
Com efeito, mesmo as teorias mais perfeitas e pertinentes jamais alcançam a magia da palavra poética e a musicalidade que se percebe na mesma, o brilho, os turbilhões do inconsciente e, sobretudo, a verdade do desejo.
Assim sendo, a verdade do inconsciente de uma pessoa poderia vir à tona em meio à poesia e na ausência da psicanálise. Da mesma forma, no registro da intimidade da escrita, ou na análise proposta pelo psicanalista, ambas estariam válidas.
Mas, para o poeta, suas palavras parecerão lunáticas quando ouvidas pelos outros.
Mas esse é o tributo que a poesia paga.
Assim, a verdade que brota do inconsciente do poeta é algo solitário, e a sociedade não pode suportar durante muito tempo aquilo que é dito pela poesia, pois a lógica do mundo e a do ecritor são opostas.
Desta forma, para que algo sobreviva visando à "segurança" da realidade, deve-se domesticar o impulso poético, através do truncamento da beleza do verbo e de seu poder de revelação da verdade.
o poeta Jim
- À Procura do Excesso
Os limites, os excessos, Morrison os utiliza com uma regularidade constante, como se houvesse uma linha invisível que conduzisse à destruição de seu potencial criativo e também de sua pessoa.
Ele aprecia comportamentos estranhos e gosta dos riscos que possam envolvê-los.
Jim experimenta inúmeras drogas, principalmente as anfetaminas, a cocaína, o LSD e o haxixe.
O uso constante e regular que ele faz dessas substâncias age, ao mesmo tempo, como uma força de inspiração e um potencializador de sua auto-destruição.
A dimensão transgressiva, que sempre caracterizou o comportamento de Jim, é bastante evidente através do uso dessas substâncias ilícitas.
Através de uma identificação com certos poetas, como Baudelaire ou Rimbaud, Morrison valoriza e idealiza o haxixe, e, em Paris, visitou o local onde se situava o "Clube dos Fumadores de Haxixe", descrito por Baudelaire.
Suas referências literárias são ecléticas.
Ele considera, em primeiro lugar, Aldous Huxley, mas também aprecia outros inúmeros poetas e escritores, tanto os antigos como os contemporâneos.
Sempre à procura de novas sensações psíquicas, ele tenta ultrapassar "as portas da percepção" recorrendo às drogas.
No caminho de seu destino, Morrison avança sem jamais retornar.
Saberia ele aonde aquele seu caminho louco, sua busca desesperada pela felicidade total, o outro lado das coisas, o estariam levando?
Jim experimentou tudo o que pôde.
Sentiu toda a sorte de sensações, chegando aos limites da consciência e da mistura de todas as percepções.
Entretanto, nota-se nele uma tendência à não-vida, à medida em que esbarra nos limiares da morte e em sua destruição.
Isso é o que nos parece à primeira vista, mas percebemos ser ainda muito cedo para colocarmos uma explicação psicológica a respeito dessa busca pela aniquilação.
Para Freud, existe um impulso ou pulsão, definida como "impulso de morte", que raramente aparece de forma clara e precisa nos pacientes que se submetem à terapia. Esse impulso, normalmente, se faz notar de forma indireta.
Em Morrison, uma coleção de argumentos estariam presentes para mostrar a influência desse impulso na estrutura de sua personalidade.
O Fantasma da Desgraça
Os risos sádicos, as atitudes imprevistas, os comportamentos perigosos deram colorido ao cotidiano de Morrison.
Ele não se preocupava, nem um pouco, com esses excessos.
Às vezes, Jim possuía momentos de lucidez, mas suas ações excêntricas rapidamente ressurgiam.
Ele apresentava todos aqueles comportamentos rebeldes, que surgiram na primeira fase de sua adolescência, arruinando tudo aquilo em que tocava e, em particular, os seres que pudessem pertencer à sua esfera afetiva.
O entendimento de Jim a respeito das mulheres sempre foi o mesmo: ele as enganava ou menosprezava, mostrando-se em seguida doce e terno.
Jim também apresentava acessos repentinos de violência ou agressividade, surpreendendo a todos que estivessem a seu redor.
Depois dessas colocações, resta perguntar:
- Por que Jim não viveu sozinho, desde o início, os seus próprios sonhos?
- Por que, um pouco mais tarde, hesitou em não mais fazer parte dos Doors ou cantar sozinho?
Várias colocações podem ser propostas para explicar os motivos de seu declínio.
Mas, o principal é perceber entre todas, que restava a ele ainda "abrir" uma porta, uma entre milhares de outras, que lhe revelaria um mundo fantástico, mas também que o conduziria às margens da loucura.
A música foi indispensável a Morrison para fazer desabrochar tudo aquilo que motivava e precipitava os componentes de sua destruição. Mas, existia também um aspecto criativo que se encarnava na sublimação de sua arte.
Jim foi considerado por muitos como um cantor sem grande aptidão vocal, ainda que a tonalidade grave de sua voz transmitisse uma gama de variadas emoções.
Entretanto, ele possuía incontestáveis qualidades artísticas e uma facilidade incrível de transmitir emoções ao público ou à platéia.
Esse carisma de Jim fez dele um vocalista que se projetava em cena, não apenas devido às suas provocações e excentricidades, mas sobretudo por essa energia, essa força que ele exalava e que conseguia emitir através da poesia de sua voz e de sua música.
A falta de sentido que havia em sua vida, ele conseguia transformar na mais primordial das emoções.
Sua identificação com um animal totêmico, o lagarto, mostra que ele pensava possuir um tipo de memória profunda, reptiliana. Como afirmam os neurobiologistas, esse cérebro reptiliano, que nós compartilhamos com inúmeras espécies animais, é a faceta indomável que habita em todos nós.
Morrison se sentia particularmente próximo dessa dimensão.
A parte dionisíaca de seu ser vibrava em uníssono com o lagarto, que se sentia livre dentro dele.
A nossa civilização está baseada na retenção e repressão de seus próprios instintos, mas consegue perceber as necessidades instintivas imediatas.
Em plena crise adolescente, os jovens encontram-se num caminho difícil, ao sentirem a explosão de seus desejos de puberdade.
É exigido a eles que se conformem com as normas prescritas pela sociedade, enquanto todo o seu ser anseia pela satisfação imediata de seus impulsos.
Morrison exalta em seus escritos esse desejo de satisfação urgente dos instintos.
"Queremos o mundo e o queremos agora!"*
*obs.: essas palavras foram extraídas da canção "When the Music's over", que está no primeiro álbum - "The Doors"
Como a juventude da época poderia não reconhecer essas palavras?
Isso aconteceria se não dessem crédito à encenação do artista, à dramatização de sua interpretação e de seu canto, às suas provocações libidinosas e gestuais. Não acreditando em seus atos. Pois, essas representações públicas do artista não eram, apenas, ações de criação poética, mas sobretudo, de transgressão.
Esse desejo de transgredir, de atravessar o limite de todas as coisas, reaparece ao longo de todo o percurso de vida de Jim Morrison, o rebelde.
-Contra a Lei dos Pais -
Jim sempre teve uma grande oposição a seu pai e às idéias que ele encarnava.
Mesmo uma possível lembrança positiva que pudesse ter dele, apenas salientava uma certa diferença com o caráter de sua mãe, mas não o redimia de suas possíveis faltas.
A revolta de Jim por seu pai é de uma fixação notável e irá difundir-se, progressivamente, por todos os valores emblemáticos de poder e pelos valores da sociedade americana da época.
Ele possui uma rebeldia, uma revindicação fálica, que destina a todos os atributos do poder.
Essa falha na simbolização que Morrison possui e que o faz chegar paulatinamente a comportamentos de oposição é dirigido: em primeiro lugar, aos valores de seus pais, que ele não aceita, mas sobretudo, aos valores impostos pelas autoridades escolares, dos colégios ou universidades.
Depois disso, ele irá frequentemente apresentar comportamentos de embriaguês pública ou de porte de drogas.
Quando, então, Jim se tornar um cantor, sua atitude de provocação e desafio à autoridade crescerá ainda mais.
Esse tipo de atitude está, evidentemente, diretamente relacionada com os aspectos destrutivos e autodestrutivos de sua personalidade.
Ele se compara, voluntariamente, a um arco destendido pelos anos e que se pode romper com um só golpe. Isso se deveria à energia extraordinária que Jim empregava em sua criatividade, como também em sua destruição, nesse período de sua vida.
Durante uma entrevista, lhe foi proposto para que apresentasse sua filosofia de vida.
E ele respondeu:
"- Eu sempre falei sobre a revolta contra a autoridade. Eu amo as idéias que remetem à destruição ou ao processo de se subverter a ordem estabelecida. Eu me interesso por tudo o que se refere à revolta, ao caos, e, sobretudo, às atividades que não fazem sentido algum."
Ele acrescenta provocativo, mas também tentando mostrar um outro ponto:
"- O mundo, que nós sugerimos, é um novo Oeste selvagem. Um mundo cruel e sensual, estranho e sufocante."
Esse lado rebelde também se desenvolveu em Morrison a partir da adoração que ele tinha pelo perigo e pela apologia à utilização de drogas, principalmente as alucinógenas.
Ele é, fortemente e ferozmente, antimilitarista.
Numa época em que os Estados Unidos estavam atolados na guerra do vietnan, tão mortal como impopular para a juventude, Jim escreveu várias canções engajadas, como por exemplo: "Unknown Soldier"(Soldado Desconhecido).
Várias vezes, ele incitou a juventude contra os adultos, chegando mesmo a propor uma rebelião organizada na canção "Five to One", onde evocou a relação de forças entre um e cinco, afirmando "eles têm os fuzis, nós temos o número."
Nessa época, os concertos dos Doors produziam transbordamentos de agressividade por parte do público, fortemente estimulado por Morrison que os provocava a se rebelar e acordar.
Os aborrecimentos com a polícia tiveram início e prosseguiram com a retirada de Jim dos palcos, às vezes durante um concerto, e depois através de processos criminais que ameaçaram a liberdade de expressão do Grupo e a liberdade individual de Jim Morrison.
Essa revolta contra o autoritarismo possui nuances de uma atitude superficial de rebelião adolescente, na qual uma geração deseja tirar satisfações daquela que a precedeu. E era assim que agiam os adolescentes que adoravam os Doors, imitando o astro e herói que se opunha à autoridade.
Por seu lado, a sociedade americana entendeu toda essa manifestação de rebeldia e insurreição, como um tremendo perigo a seus valores. Desta forma, essa contestação, trazida pelos Doors e personificada em Morrison, deveria ser radicalmente reprimida.
Entretanto, sempre é possível uma outra interpretação diante da personalidade, dos discursos e dos comportamentos de Morrison: diz respeito à estrutura básica de um indivíduo permanentemente em busca de novos limites.
Era ele um príncipe dos excessos, campeão de provocações, desbravador de fronteiras, ou apenas um herói exaurido dando seu último suspiro?
- O Relacionamento impossível com sua Mãe -
A primeira mulher que teve importância na vida de Morrison foi, sem dúvida, sua mãe.
Ela encarnava o pólo arcaíco de sua relação com o outro e de seu jeito de sentir as pessoas que o rodeavam.
Ela representava aquilo que Freud denominava "das Ding" e que Lacan traduziu pela expressão "a coisa", algo que se situaria entre a mãe e uma colocação infraverbal da qual não se possui nenhum conceito.
É sabido que Morrison emprestou à sua vida um caminho estreito, que se situava entre os registros do real e do imaginário, atingindo as portas do simbólico.
Resta saber se, quando Jim atingiu essa dimensão, a relação original com sua mãe permaneceu a mesma.
Qual precipício, na metáfora paternal, conduziu Morrison através desses dois mundos dos quais ele evoluiu?
Apesar de seu pai carregar as insígnas da potência e do poder, Jim sentiu falta de sua influência na realidade.
Isso ocorreu não apenas devido às suas ausências constantes, mas sobretudo porque ele assumia tão somente uma faceta de sua personalidade, mostrando-se como um pai severo e repressor.
Ele nunca tentou realmente compreender seu filho e suas diferenças.
Ele queria simplesmente servir de exemplo ideal a seus filhos, sem tentar transmitir qualquer coisa de sua própria experiência ou de seus sentimentos.
Seu pai era totalmente voltado para o trabalho, sacrificando sua relação com a família e assumindo pouco o seu papel de educador e genitor.
Morrison não evoca diretamente a lembrança de seu pai em seus textos, mas permanece célebre a passagem registrada na canção "The End", onde ele declama:
"Father? (Pai?)
- Yes, son. (Sim, filho)
- I want to kill you" (eu quero te matar)
Ao qual se junta, após alguns compassos da música:
"Mother, I want to fuck you...."(Mãe, eu quero te fuder....)
Na versão musical gravada deste trecho, Morrison não pronuncia a palavra "fuck", mas em seu lugar emite um longo e sentido grito que lembra um intenso desespero.
A palavra por si só é impronunciável, referindo-se a uma mãe.
Devido à forte censura da época, Jim não podia mencionar explicitamente o vocábulo, que carrega como significado um desejo incestuoso.
Então, quando houve um concerto dos Doors e a mãe de Morrison veio para vê-lo, ele se recusou a conversar com ela antes do show, apesar de já fazer três anos que não a via.
Talvez o motivo de tal recusa tenha a ver com o fato de que ele iria cantar essa canção diante dela, e, desta vez, pronunciando distintamente a palavra "fuck".
Quanto a seu pai, ele o via muito pouco.
Até a idade de dezessete anos, Jim aceitava se vestir adequadamente, cortar os cabelos para ver seus parentes e ir ao navio que era comandado por seu pai.
Após esse episódio, ele não verá nunca mais seus pais, recusando todo o contato com eles.
Para os pais de Jim, o comportamento do filho sempre pareceu infantil e estranho, pois para eles o que realmente importava eram os valores comuns de tradição e respeito às normas estabelecidas.
Entretanto, deveria provavelmente existir uma falha no discurso maternal, para que a mãe de Morrison pudesse preencher de uma maneira bem particular o lugar que deveria estar ocupado pelo pai, sempre ausente.
É precisamente nos entremeios dessa falha que a busca de Jim se situa.
Suas dúvidas lhe renderam uma distância sutil desse objeto maternal primário, do qual ele teve o mal de se libertar muito drasticamente.
Essa distância do objeto maternal, que normalmente deve ocorrer, é, na verdade, o espaço necessário que deve existir, para que a personalidade e subjetividade de um indivíduo comece a se formar.
Entretanto, é possível conjecturar, que ela foi deficiente para nosso herói.
É,justamente, no jogo simbólico dessa distância, que a "psique" de uma criança se constrói.
Ela irá possuir estabilidade afetiva a confiança em si mesma, se as condições necessárias a esse amadurecimento estiverem presentes e, principalmente, se a mãe for suficientemente amorosa.
O contrário de ser suficientemente amorosa é ser suficientemente severa, ou seja, capaz de aferir castigos e reprimendas que, ainda assim, permitam ao sujeito buscar um sentido entre as palavras pronunciadas e as situações; entre os afetos aprovados e as expressões ditas. Em outras palavras: coerência.
Baseados nesses conceitos, podemos tentar retratar passo a passo as etapas do relacionamento de Jim com sua mãe, apesar dos poucos elementos que dispomos a respeito disso.
Através, principalmente, da obra de Jim e do que foi sua vida, propomos uma reconstrução de sua história e uma compreensão diferente de seu destino.
O princípio de um amor excessivo é inviável.
No entanto, a idéia de uma grande proximidade a esse objeto maternal, por sua vez, aproxima e ao mesmo tempo distancia.
A tentativa de reencontrar essa proximidade ao objeto é ainda recuperável na lembrança de sua mãe.
A busca de Jim pelo outro lado não seria a mesma que se tem diante de um espelho, onde se observa o outro lado de uma imagem?
Essa busca se situa entre os dois caminhos que ele explora: a música e a linguagem.
A música o levou ao sucesso, mas sem as alegrias e plenitude que ele esperava.
Sua experimentação das palavras, através de seus escritos poéticos, vem colocar uma outra questão.
Como as palavras puderam lhe oferecer uma carga afetiva específica e um ponto preciso de apoio ao nível do simbólico?
Jim permanecia constantemente na fronteira entre os dois mundos, à margem da substância do real que é limitada de forma aleatória pelo simbólico.
Essa exploração estava estreitamente relacionada à natureza particular do vínculo que se estabelecia com sua mãe. E é também a partir dessa matriz original que ele buscava comportamentos específicos em relação às mulheres.
Se é usual afirmar que em amor as histórias se repetem, seria possível dizer aqui que, para Morrison, elas rimavam?
- As Mulheres e a Repetição
"Se um ensaio biográfico deve penetrar até à inteligência da vida psíquica de seu herói, ele não deve - como é o caso da maior parte das biografias, por discrição ou prudência - silenciar-se diante das características da vida sexual do sujeito"
Freud
O relacionamento de Jim com as mulheres foi complexo, envolvendo numerosas facetas contraditórias.
É certo atribuir a esses relacionamentos um longo desenvolvimento, visto que, como afirmaria Freud, o amor e a sexualidade ocupavam um lugar central tanto em sua vida como em seus escritos.
Nós iremos evocar a relação extremamente ambivalente de Morrison com sua mãe, um envolvimento de amor e ódio.
Os laços que ele mantém com as mulheres são conflitantes, mas o que acaba dominando é a coexistência de duas tendências antagônicas: de um lado a obsessão de um relacionamento com uma mulher, Pamela Courson - único, verdadeiro, profundo e durável amor de James; e de outro, a multiplicidade impressionante de suas conquistas amorosas, tornando-o um verdadeiro Don Juan.
Esses dois lados coexistiam em Morrison: o amante apaixonado pela poesia, pelo amor e pela pureza; e o homem ávido por conquistas e novas experiências, tentando, nesses encontros efêmeros, saciar uma sede incontrolável pelo desejo, mas que, mesmo na repetição constante dessas aventuras, nunca conseguia obter a satisfação total.
Sua primeira coletânea de poesias foi uma edição de 500 exemplares, publicada no mome de James Douglas Morrison, e dedicada à Pâmela Courson, sua alma gêmea, sua amante cósmica.
Ele a conheceu muito cedo, logo depois que a banda foi formada. Jim se deixou seduzir pela beleza frágil e pela graça daquela jovem, que era também apaixonada, como ele, pela literatura e poesia.
Durante todo o tempo em que durou o relacionamento de ambos, ela permanceu como uma guardiã de sua poesia.
Pâmela foi capaz de se manter na retaguarda, várias vezes, pelo bem de todos; mas ela sempre encorajou Jim a seguir seu caminho de poeta, indo contra todas as tentativas que procuravam desestabilizar o vocalista para esse objetivo.
Certa vez, ela chegou a declarar, que era uma criação de Morrison.
Aparentemente, esse casal parecia desequilibrado, mantendo-se entre a forte personalidade e o caráter totalmente imprevisível de Jim, e a figura frágil, bastante introvertida e reservada de Pâmela.
Ela permaneceu até o fim ao lado de Jim, acompanhando-o nos melhores e piores momentos de sua vida.
Pâmela Courson e Jim Morrison
Evidentemente, Pâmela teve que suportar seus constantes afastamentos, e teve também que se opor aos outros membros dos Doors, que o mantinham, algumas vezes, muito longe ou o encorajavam até o fim em seus excessos.
Ela se entregou rapidamente às drogas, viciando-se em heroína.
Apesar dos numerosos relacionamentos de Morrison com outras mulheres, ela permaneceu sempre perto dele; e ele sempre retornou para ela como um viajante a um porto seguro.
Pâmela classificava as poesias de Jim; enumerava os vários cadernos onde ele escrevia alguns comentários; anotava suas impressões a respeito de vários projetos, às vezes, sem qualquer perspectiva futura de ser executado; explicitava cenários de filmes que poderiam um dia ser produzidos.
Ela o conduzia e amparava através de todas as tempestades, para que ele pudesse seguir em seu trabalho de escritor e retornasse à poesia, longe da turbulência do "show-business" e de todos os inconvenientes aí existentes.
É ela que o incentivará a partir para Paris a fim de se concentrar em sua criação poética.
Apesar da curiosidade que gera os inúmeros acontecimentos da vida de Jim Morrison, é preferível nos deter na análise de sua poesia, pois ela transmite maravilhosamente toda a problemática que envolveu sua existência.
Um poema, entre outros, ilustra essa procura sem fim de Jim pelo prazer e pela mulher.
The Crystal Ship
(O Navio de Cristal)
"Avant que tu ne sombres dans l'inconscience"
(Antes que você penetre na inconsciência)
"Je voudrais un autre baiser"
(Eu gostaria de receber um outro beijo)
"Une autre chance éclair vers la félicité"
(Uma rápida oportunidade para a felicidade)
"Un autre baiser, un autre baiser"
(Um outro beijo, um outro beijo)
"Les jours sont clairs et remplis de peine"
(Os dias são claros e plenos de inquietação)
"Enveloppe-moi dans ta douce pluie"
(Envolva-me em sua doce chuva)
"Cette fois où tu es partie fut trop insoutenable"
(Aquela vez, quando você partiu, foi muito insuportável)
"Nous nous retrouverons, nous nous retrouverons"
(Nós nos reencontraremos, nós nos reencontraremos)
"Ô dis-moi où se trouve ta liberté"
(Oh, me diga onde se encontra sua liberdade)
"Les rues sont des champs qui ne meurent jamais"
(As ruas são campos que nunca morrem)
"Délivre-moi des raisons pour lesquelles"
(Entregue-me as razões pelas quais)
"Tu préférais pleurer"
(Você prefere chorar)
"Je préférais fuir"
(Eu prefiro voar)
"Le vaiseau de crystal se remplit"
(O navio de cristal encheu-se)
"Un millier de filles, un millier de frissons"
(Um milhão de garotas, um milhão de desejos)
"Un million de façons de passer le temps"
(Um milhão de maneiras de passar o tempo)
"Quand je reviendrai, j'enverrai un mot"
(Quando eu retornar, enviarei uma palavra)
Assim, ele evoca sua busca desesperada pelo prazer, do qual sente um enorme vazio: " Eu gostaria de receber um outro beijo........uma rápida oportunidade para a felicidade."
Essa busca sem fim encarna a fragilidade de seu subjetivismo, sempre procurando encontrar o instante mágico, o instante absoluto, mesmo se para isso for preciso passar por novas e constantes experiências com as mulheres.
A beleza desse texto remete também à dificuldade da separação e à dor que ela provoca.
"Os dias são claros e plenos de inquietação
Envolva-me em sua doce chuva
Aquela vez, quando você partiu, foi muito insuportável
Nós nos reencontraremos, nós nos reencontraremos"
Aqui, ele provavelmente fala de uma mulher presa em seu coração, mas que está muito longe. Então, ele reprime e encerra seu discurso que poderia se tornar maravilhoso.
"O navio de cristal encheu-se,
Um milhão de garotas, um milhão de desejos
Um milhão de maneiras de passar o tempo
Quando eu retornar, enviarei uma palavra"
Neste trecho, pensa-se imediatamente em Don Juan e no número de suas conquistas, que na ópera de Mozart atingiu a marca de três mil. E a cada reencontro surge um desejo novo, uma outra maneira de passar o tempo.
Jim continua a acreditar que existe um mundo feito de deleites infinitos.
Para encontrá-lo é suficiente subir nesse navio, símbolo de felicidade sem fim, do qual se pode retornar, na medida em que se pode nomear uma palavra de retorno.
Entre os diferentes tipos de mulheres que ele encontrou em sua vida, existe um tipo com o qual ele manifestou alguma dificuldade.
Uma canção "Twentieth Century Fox" a consagrou.
Seu título contém uma homofonia, que encerra um duplo sentido para a palavra "fox" - raposa - que na gíria significa uma mulher libertina, sensual e excitante, que se pode traduzir do francês como "galinha" ou "puta".
Certamente, Jim brincou com a semelhança sonora entre essa palavra e o nome da famosa companhia de produção cinematográfica americana.
"Ni larmes, ni frayeurs, ni années gâchées"
(Nem lágrimas, nem medo, nem anos arruinados)
"Ni montres, c'est une twentieth century fox"
(Nem horas, ela é uma twentieth century fox)
"C'est la reine du cool, et c'est une dame qui sait attendre"
(Ela é a rainha do cool, é uma senhora que sabe esperar)
"Depuis qu'elle a quitté l'école, son esprit n'a jamais hésité"
(Depois que ela abandonou a escola, seu espírito nunca mais hesitou)
"Elle ne perd pas de temps en simple bravardage"
(Ela não perde tempo em tagarelice)
Nós podemos reconhecer um tipo particular de mulher, que se pode qualificar de narcisista e que não parece se interessar por outra coisa a não ser ela mesma.
É provável que, em alguns de seus encontros femininos, Morrison tenha conhecido mulheres desse tipo, e que certamente resistiram a todas as suas tentativas de sedução.
Diferentemente das "groupies", que fazem tudo pelos seus ídolos, essas mulheres individualistas, receosas de sentir prazer, de mostrar a melhor imagem delas mesmas, são frequentemente, como a prática psicanalista mostra, incapazes de amar o outro.
É precisamente isso que Jim reclama: ser amado. E não apenas pela imagem que ele representa - um astro de rock mundialmente conhecido - mas também por ele mesmo, pela pessoa que ele é com seus erros e sofrimentos.
Através dessa poesia, cuja versão cantada foi um verdadeiro sucesso, ele parece se vingar também da insatisfação que esse tipo de mulher lhe oferece. (cont.)
enviada por Nicinha
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